Blog da Luciaurea
Friday, 13 April 2012
posted by Luciaurea

MÚSICA EM FOCO
Arachne’s Song
by Dyonisis

Teia em Solutio

Abordando agora os mecanismos de defesa da Sombra (segundo Jung), esta música os evoca através do simbolismo da Aranha como metáfora do Feminino Terrível: nos aspectos da sedução sombria, da defesa pelo medo instintivo e do canibalismo arquetípico no uso do veneno, como forma de proteção e manutenção do ego. Para compreender estes mecanismos de defesa sombrios femininos (pois estudaremos na letra da música que a personagem atua como a fêmea que devora os machos que mais ama), precisamos compreender o simbolismo da Aranha.

Veremos, com uma certa surpresa, que a Sombra, que reza no Inconsciente, não é de todo “má” como muitos pensam e temem, e que 90% de seu conteúdo é ouro, pois nos protege e usa a nossa agressividade natural para manter nossa integridade. Descobriremos também, que muitas vezes, precisamos assumir, que necessitamos acessar e integrar esses conteúdos deixados à margem de nossa consciência, para não nos perdermos nas teias de outrem…

Vamos então, garimpar os aspectos sombrios do simbolismo da Aranha em Arachne’s Song, da banda Dyonisis.

A ARANHA COMO ANIMAL DE PODER

A aranha como animal de poder é um arquétipo fortíssimo no inconsciente coletivo feminino, e emerge sempre em sua defesa, tanto nos equívocos quanto nos acertos nas relações com o Masculino.

“Em razão de sua rede de raios tecida habilmente e de seu posicionamento central, é considerada na Índia símbolo da Ordem Cósmica, assim como a tecelã (Maya) do mundo sensível. É a Criadora Cósmica e a Senhora do Destino; podendo ser ainda um símbolo do narcisismo, pois contém em seu símbolo a obsessão por seu centro.”
(Mircea Elíade, em Símbolos de Elíade)

Uma outra particularidade no simbolismo da aranha no centro de sua teia, é que, assim como a imagem do Sol está para seus raios como substâncias voláteis se estendendo como se fossem seus braços, a teia da aranha está para a formação de sua própria substância, sendo ela o próprio tecido do mundo, que se estende em todas as direções a partir de seu centro. Aranha representa, deste modo, muito trabalho, intenção sábia e criatividade, pois ela tece sua teia, ela sabe o que deve ficar perto e o que deve ficar longe, ela é agressiva na defesa de seu território e por isso mesmo sua estrutura baseada no centro se constitui um narcisismo positivo, para manter a vida, mesmo que seja pela morte de outros.

Numa das versões da mitologia grega, seu drama está relacionado à Aracne, uma jovem mortal bordadeira extremamente habilidosa, que, ao se comparar à deusa Atena por suas habilidades, foi condenada pela própria deusa, até seus descendentes, a tecer teias ao invés de tecidos. Vejamos que, originalmente Aracne podia bordar tecidos, e neste sentido, ela tem sua correspondente na Índia, sua existência revela os véus tecidos por Maya, Senhora da Ilusão, do mundo da matéria transitória.

A Aranha como Senhora do Destino também tem relação com as Nornes escandinavas, as Moiras gregas e as deusas nórdicas tecelãs Holda e Frigga. Na função das respectivas deusas, a Aranha estabelece leis – organização formativa e caminhos em sua teia – para modelar os destinos individuais das criaturas, que no mito nórdico, está relacionado a um princípio muito maior, o Örlog, que abrange as camadas primais que determinam o Agora Eterno, como também a trajetória de todos os mundos do Universo e seres neles existentes. Neste sentido, a Aranha está relacionada à passagem do tempo: passado, presente e futuro, tendo como início o seu Centro.

Seu veneno constitui um aspecto da cura da Sombra, “o que mata cura”, lhe sendo atribuídos amplos poderes medicinais. E, de fato, quanto mais entramos em contato com nossos próprios venenos, mais imunes ficamos aos venenos alheios, menos ingênuos somos.

O ANIMUS NO FEMININO FERIDO

Um feminino ferido produz muitos argumentos e artimanhas, porque ele contém muitos elementos aprendidos desde a infância, e emaranhados entre si, que estão inconscientes nos complexos e desejam ser elucidados, e isso gera muita angústia dentro da mulher, necessitando de um princípio organizador amadurecido que vem do masculino introjetado nela, seu Animus.

A Aranha contém em si esse princípio organizador, porém algumas espécies, além de predadoras em potencial, se consistem num verdadeiro perigo ao ser humano,  e quando este aspecto do arquétipo é evocado para defender a mulher de um masculino que ela fantasia, considera ou constela como também um predador, no equívoco destes aspectos predatórios entre dois adultos, constela-se uma quaternidade básica: que é, nas palavras de Erich Neumann “a consciência masculina e o inconsciente feminino do homem, e a consciência feminina e o inconsciente masculino da mulher, se ligam e se fertilizam mutuamente.” Isso significa que, enquanto a orientação consciente da mulher em relação ao mundo e ao homem, estiver identificada com o mundo dos valores negativos masculinos do patriarcado, ela constelará para si, a necessidade de se comportar como uma “viúva negra”, porque acreditará que os homens são perigos em potencial.

O aspecto do Animus da mulher é estruturado nas convicções, nas atitudes, nas interpretações e opiniões inconscientes da absorção dos valores patriarcais do nosso ambiente cultural. Neumann considera:

“Conseqüentemente, em seu desenvolvimento ela se depara com a difícil tarefa de jogar fora seus preconceitos advindos dos valores da cultura patriarcal, e de superar suficiente­mente os animi patriarcais para tornar-se acessível ao aspecto espiritual especí­fico da natureza da mulher. Isto significa não apenas que a consciência cultural­mente condicionada da mãe — que molda o ego e a consciência do filho com seus julgamentos, valores e convicções — é por sua vez modelada pelo cânon cul­tural no qual a mãe vive, mas também que a camada superior do seu inconscien­te, com suas avaliações e julgamentos inconscientes, é determinada pelo cânon cultural, que em nosso caso é patriarcal. Essas atitudes irrompem na experiên­cia pessoal de uma mulher através das figuras introjetadas e das concepções do mundo masculino a seu respeito. Sem que se dê conta, o pai, o irmão, o tio, o professor e o marido mol­dam-lhe a maneira de reagir. Sob a forma de julgamentos e preconceitos da mãe, todos esses elementos masculinos desempenham um importante papel nos cui­dados e na criação do bebê, preparando-o para a adaptação à cultura predomi­nante.”

Estes estudos nos levam a ver a Aranha, tanto como princípio construtor como princípio destruidor, simbolizando uma dualidade do aspecto Persona/Sombra, e a integração de ambos para o sacrifício – o sagrado ofício – humano, de se individuar na vida enquanto morte, e na morte enquanto vida, isto é, nos ciclos da energia psíquica da libido: na extroversão e no seu recolhimento, como movimentos contínuos dos pulmões do Universo, inspiração e expiração, contenção e expansão.

A Aranha luta contra o uroboros patriarcal, termo utilizado por Neumann e aqui adaptado ao simbolismo da música, que retrata uma mulher extremamente defensiva em seu complexo de poder e ao mesmo tempo no papel da vítima com medo de sofrer, que revela um feminino que teme ser “engolido” (princípio do canibalismo como metáfora) pelo masculino. Esse uroboros patriarcal é um princípio masculino ctônico inferior ligado ao arquétipo da Grande Mãe,indiferenciado da mesma, e por isso mesmo, sem condições de dar suporte a um feminino já diferenciado em sua jornada – em outras palavras, homens infantis temem mulheres de verdade e tendem a projetar nelas a Viúva Negra. Trata-se de um Masculino que ainda não empreendeu a Jornada do Herói, e por isso mesmo, pela infantilidade e dependência materna, constela heroínas perigosas e mortais.

Os elementos engolidos pela Aranha, neste caso, perderão sua forma, para serem gestados novamente pela mesma Aranha como símbolo. Isto é um tipo de automorfismo. Às vezes precisamos ser enrolados, ter nossa essência sugada, para aprendermos a valorizar os 90% de ouro que carregamos dentro de nós. Às vezes a mulher ingênua, precisa aprender a ter mais malícia com seu lado “viúva negra”, integrando-o, considerando-o, para equilibrar suas relações com seu Animus projetado no outro, pois a Sombra pode se revelar uma ótima professora e quando integrada à consciência, a defende sem necessariamente atacar o outro na relação projetiva. E por outro lado, a mulher que é a própria viúva negra, precisa entrar em contato com os aspectos sagrados da Aranha como símbolo, para digerir suas reações ao masculino, aprendendo a sentir e a pensar, criando vínculos que não sufoquem, nem matem a identidade do outro numa relação.

 

I might be strong but I am all threads
Eu poderia ser forte, mas sou todos os fios
And I hold myself together with a web
E eu seguro a mim mesma em uma teia
And you pick the strands apart
E você escolhe os linhos separados
Everyone unravels just a bit in the dark
Todo mundo desvenda apenas um pouquinho na escuridão

A gossamer ruse…
Uma artimanha diáfana (de teia de aranha)

Recoil from the colours you unmask
Recue das cores que você desmascara
Fool to meddle with the scaffold of the heart
Tolo o bastante para intervir com a armadilha do coração
I play dead when I feel under threat
Eu jogo com a Morte quando me sinto sob ameaça
When awake, I’m my own marionette
Quando lúcida sou minha própria marionete

I may be fragile, fighting through
Eu posso ser frágil, lutando adentro
But they say silk is bulletproof
Mas eles dizem que a seda é à prova de balas
I may be frightened facing you
Eu posso sentir medo ao enfrentar você
Still I spin out sideways from the truth
Mesmo assim eu ainda giro pelos lados da verdade

A gossamer ruse…
Uma artimanha diáfana (de teia de aranha)

I swing between the flower and the thorn
Eu balanço entre a flor e o espinho
Hang resplendent with the diamonds of the morn
Penduro-me resplandecente com os diamantes da manhã
Then I wait to trap you in delight
Então eu espero para te prender no encantamento deleitoso
Sudden does dawn’s wander sicken down into night
Repentinamente vagueando doente noite abaixo

A gossamer ruse…
Uma artimanha diáfana (de teia de aranha)

And sudden do my colours re-appear
E de repente faço minhas cores reaparecerem
And you cry out as I’m crawling ever near
E você chorar, assim como eu estou rastejando sempre por perto
Time’s too late to allow old regrets
Tarde demais para permitir velhos arrependimentos
I devoured those that I loved the best
Devorei os que eu mais amava

I may be fragile, fighting through
Eu posso ser frágil, lutando adentro
But they say silk is bulletproof
Mas eles dizem que a seda é à prova de balas
I may be frightened facing you
Eu posso sentir medo ao enfrentar você
Still I spin out sideways from the truth
Mesmo assim eu ainda giro pelos lados da verdade

A gossamer ruse…
Uma artimanha diáfana (de teia de aranha)

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INSPIRAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

Dicionário Crítico de Análise Junguiana

A Criança, Erich Neumann, Editora Cultrix

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4 comments


Luciaurea
haha, eu também tenho medo de aranhas Ivana.
Aversão é a palavra correta no meu caso.
Que você possa encontrar um significado para isso :-)
Super beijo!
1 year ago
Luciaurea
Gratidão Simone :-)
1 year ago
IVANA MIHANOVICH
Luci, vc escolheu exatamente minha quase fobia. Quer dizer, não sei bem qdo é que a gente já cataloga como fobia e qdo é só paúra...rs.
Ok, deve ser fobia mesmo, pq até pra ler o texto eu to no ensaio; a própria palavra é difícil pra mim.
Mas faz tempo que estou procurndo uma interpretação bacana sobre isso, então vencerei a recusa fóbica e lerei!...rs
Bjss
2 years ago
Simone
Muito interessante essa banda, não conhecia.
Gostei da sua análise da sombra, ela leva em conta tanto a negligÊNCIA
do seu aspecto terrível quanto o seu abuso .
2 years ago