Blog da Luciaurea

Como o próprio nome sugere, invisibilidade social é uma patologia social, de responsabilidade e de identidade, uma violência psicológica que se manifesta através da indiferença humana ao sofrimento, “o que não quero enxergar no outro não existe em mim”, e se expressa de diversas formas: econômica, sexual, racial, etária, estética, histórica, religiosa e cultural. Ela pode acarretar no desenvolvimento de outras doenças psíquicas como a depressão e comportamentos sádicos na expressão do bullying.

 

Invisibilidade Social

Invisibilidade Social

A invisibilidade social tem como principal fator de origem as crenças na menos valia, e de que o outro é uma ferramenta para ser usada, onde não é visto como um ser emocional, pensante e ativo, que exerce seu poder como fator decisivo em realidades menores e maiores no contexto pessoal, familiar, social, mundial, universal, ecológico e quântico.

A invisibilidade social atende um propósito: mascarar as feridas de quem acha que não tem nada a ver com a história, “eu olho mas não te vejo”.

Existe uma crença muito forte que vincula a questão da invisibilidade social à mais valia no sentido do canibalismo capital, e eu gostaria de elucidar este ponto, me diferenciando da visão marxista, porém apresentando uma visão do ponto de vista psíquico, pois acredito ser de grande importância a mais valia dentro deste contexto, e por isso nos aspectos pessoal e social.

Invisibilidade social e mais valia

A invisibilidade social não está, como muitos podem pensar, diretamente ligada à mais valiacomo símbolo do capitalismo. O canibalismo capital está mais vinculado aos complexos desuperioridade e poder do que com a mais valia.

Mais valia foi um conceito bem explorado por Marx. É geralmente atribuída ao o ato de aumentar o lucro em cima da produção de outrem, para fins capitais (quando há uma diferença abrupta entre o trabalho produzido e o salário pago). Na extensão desse conceito, amplificando o mesmo para outras áreas da vida, temos também os abusos familiares (quando os pais desejam viver as vidas dos filhos como dividendos do “investimento” em família) e nos relacionamentos afetivos (quando o conforto de um lado existe em detrimento do outro).

Embora estes abusos existam na vida real, interpretar a mais valia como tal é um equívoco, pois na psique ela está diretamente vinculada à auto-estima e aos níveis de permissão, porque são camadas mais próximas dos complexos, visto que atuam na maioria das vezes, de maneira inconsciente, e por isso, estes elementos são muito familiares à maneira como o dinheiro é visto e utilizado. Existe um equívoco nestes parâmetros que precisa ser esclarecido.

Mais valia ou menos valia se aprendem na infância e cada um constrói sua visibilidade ou invisibilidade como mecanismo de defesa, de acordo com o os modelos que teve e em cima do que passou a acreditar. E neste sentido, a mais valia é um fator muito importante, mas é apenas um dos pontos que influenciam tanto na visibilidade social quanto na educação econômica de uma pessoa, e não o ponto principal: ela é um elemento revolucionário na psique, mas veremos que o ponto principal se origina no complexo (complexo conforme Jung).

A mais valia e os complexos

É impossível deletar a mais valia ou menos valia da alma humana, porque elas são elementos que se relacionam com os complexos, como o de inferioridade, o de superioridade e o de poder, e eles se tornam uma equação que precisa ser resolvida para vivermos em equilíbrio. Logo, são estes os fatores mais importantes que vão atuar na forma como lidamos com nossos níveis de permissão para viver tanto o amor, como os relacionamentos, a abundância, o trabalho e o dinheiro, e vão influenciar nossa base afetiva, espiritual e econômica também. Não são estes os únicos complexos ativos na psique humana, existem outros mais primários como o complexo materno e o complexo paterno, que também influenciam na maneira como lidamos com estas questões, pois eles oferecem o suporte para nossas crenças sobre o que é o amor, a vida, o sexo, o sagrado, o trabalho, o dinheiro, o corpo, o lúdico, a morte, como veremos adiante.

A mais valia está ligada então aos nossos níveis de permissão. Podemos representar isso através de alguns exemplos. Distribua a mesma quantia de dinheiro entre uma pessoa que vive na mais valia e outra que viva na menos valia, e terá como resultado a que vive na mais valia, aumentando o seu rendimento e a que vive na menos valia se endividando. A pessoa na mais valia se permite criar soluções e desenvolver recursos para se diferenciar da dependência do dinheiro, e por isso mesmo não sente a falta dele. A pessoa na menos valia não tem permissão para desfrutar o dinheiro. Você pode perceber que são paradigmas completamente opostos. Dentro desta visão, você também pode observar que os empresários bem sucedidos que vivem na mais valia não abusam de seus colaboradores.

É possível aplicar o mesmo princípio ao amor. Distribua dois grupos de crianças e atente para que ambos recebam a maternagem. No primeiro grupo você tem amparadores comprometidos com a responsabilidade amorosa e no segundo, você tem amparadores que são comprometidos com a responsabilidade social. Depois de algum tempo, você terá como resultado, o primeiro grupo de crianças com forte auto-estima e boa noção de identidade, e no segundo grupo, crianças ainda dependentes de seus amparadores  e preocupadas se estão agradando o suficiente. A responsabilidade social é um paradigma que inclui o amor como uma meta a ser alcançada, enquanto que a responsabilidade amorosa é um paradigma que inclui o amor como condição básica para o desenvolvimento, e por essa razão, é mais funcional como recurso social.

O dinheiro como símbolo

O dinheiro é um símbolo em nossa psique. Como fator psíquico representa um reconhecimento de valor.

O sucesso financeiro de uma pessoa é apenas uma das consequências materializadas de seuparadigma pessoal, em aceitar que tem valor como pessoa – isto é, que é alguém, tem valor de identidade - e não a única consequência, pois crer que o sucesso ou o dinheiro são a única consequência de valor de identidade poderia levar o indivíduo a crer, subliminarmente ou não, que vale o dinheiro que tem, o que seria também um equívoco. Reconhecer o próprio valor traz, não apenas o sucesso material, mas também a abundância afetiva e espiritual que acompanha a pessoa em seu processo de individuação (conforme Jung).

O dinheiro é uma das consequências da consciência humana, quando esta sabe que existe uma unidade de valor na psique, assim como a saúde e o amor, e infelizmente há uma crença muito difundida de que o dinheiro é o valor de alguém em si, e não a consequência desse sentimento de valor. Essa crença gera muito preconceito contra os que estão na menos valia e vivenciam o lado oposto da moeda, e que constitui a grande parcela da população mundial. Esse fato nos leva a perceber que os invisíveis rezam apenas na invisibilidade imaginária, pois todos reconhecem sua existência física. Da próxima vez que você se sentir incomodado com a diferença alheia, e perceber que está reagindo por preconceito, avalie se você não carrega em si mesmo a crença de que você vale pelo que você ganha, ou de que você vale pela aparência que tem, ou pela sua sanidade, pelo seu nível de sensatez, pela sua inteligência, ou porque é heterossexual, ou seja lá a razão oculta que você está escondendo de si mesmo.

A invisibilidade no grupo familiar

Invisibilidade na família. Isso significa que se uma pessoa vem de uma família, ou nasceu em um grupo social que despreza a mais valia porque sente raiva de ser invisível, cujas crenças apontam para a menos valia, ela pode começar a acreditar que é invisível para ser aceita pelo grupo, porque tudo o que uma criança busca é amor, e infelizmente, famílias que cultivam a invisibilidade como símbolo, reprimem ou rejeitam membros que podem se destacar e caminhar para a visibilidade, mais valia e beneficiar todo o grupo. Temos aí a manifestação dos complexos paterno e materno, que se mostram como diretrizes na infância humana, conjugados com o complexo de inferioridade, que atuam para proteger as ações narcísicas de um grupo e mantê-lo coeso. Criam-se então políticas antagônicas que tumultuam a vida social (pois cada grupo crê que sua parte é a que fala a verdade) e instituições que protegem a invisibilidade, no equívoco da defensibilidade.

Muitas pessoas que hoje são destaque e conquistaram respeito, no início foram desacreditadas pelos próprios grupos em que nasceram ou chegaram um dia a pertencer. Por isso costumamos dizer que ter sucesso, é em parte, ser solitário. E exatamente pelo mesmo motivo, pessoas de sucesso buscam suas semelhantes, assim como os que estão na menos valia, pois viver em grupo é uma necessidade humana.

Mas é possível utilizar as mesmas instituições que protegem a invisibilidade para criar aconsciência da visibilidade - enquanto a consciência de existir, de ser alguém – quando sentimosa angústia, e deixamos de ser ninguém.

Invisibilidade social como patologia de grupo

Pensando em termos de relações não ecológicas, é um fato que socialmente existe uma necessidade de diminuir o outro, tornando-o invisível para sentir-se melhor (complexos de superioridade e poder) ou se proteger (“o que não vejo no outro não existe em mim”). Sabemos que se trata de medo ou sadismo usando máscaras de indiferença. Sabemos também que utilizamos o outro como espelho de nossas próprias projeções, e que geralmente gostamos de escolher o conteúdo que o espelho apresenta, então criamos mecanismos de defesa para não ver o que o espelho está mostrando, e caímos na negação, que por sua vez cria a máscara da invisibilidade. É desta maneira que temos uma segunda verdade: aquilo que não reconhecemos no outro não conseguimos reconhecer em nós mesmos, por isso, evitamos esse tipo de vínculo. A angústia tem má fama na sociedade. Ninguém deseja a dor. Porém é a angústia, condição sine qua non para o desenvolvimento humano e evolução em grupo.

No caso da invisibilidade, trata-se de uma verdade criada por uma camada de fantasia (lembre-se, os invisíveis rezam apenas na invisibilidade imaginária, pois todos reconhecem sua existência física), não chega a ser uma pseudo-verdade – embora ela possa ser, e embora estejamos a lidar com desilusões e desilusões sempre descubram as mentiras – mas neste caso, temos uma segunda verdade, moradora de uma camada mais profunda na psique, a verdade da sombra.

É a angústia que nos faz olhar para o espelho e enxergar os disparates e as gerações de excluídos através da sombra. A angústia nos faz ver a dicotomia entre sociedade versusmarginalizados: sendo um a persona e o outro a sombra, um do outro e vice-versa, porque existe igualmente uma tensão e resistência por parte dos invisíveis em se manterem na defensibilidade do invisível, e dos visíveis em manter a máscara da visibilidade.

Veja, então a angústia também pode ser produtiva – e criativa. E com ela aprendemos que tanto a crueldade, quanto a teimosia em não querer mudar ou a indiferença - são sintomas. Sintomas de uma patologia de origem complexual que está se tornando institucionalizada, e é uma grande contribuinte para acentuar as desordens de comportamento e/ou a criação de grupos que se sentem marginalizados.

Podemos encontrar alguns exemplos da invisibilidade social, afetada por esta negação e indiferença, no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra), em campanhas nacionais de defesa dos direitos da criança, do adolescente e dos pacientes psiquiátricos, e no crime organizado, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho). Eles são os sintomas de nossa inferioridade pessoal e social, daquilo que deixamos à margem dentro de nós, das emoções e pensamentos que não tratamos com respeito e dos conceitos que rejeitamos para parecermos bons e justos. Podemos nos diferenciar destes aspectos quando passamos a incluir o outro lado do espelho integrando os conteúdos sombrios possíveis da psique.

Terapia da inclusão

A sociedade está doente e não haveria a necessidade de tantas campanhas ou reuniões de invisíveis para se tornarem visíveis, se os indivíduos fossem psiquicamente  saudáveis. Uma sociedade saudável, constituída por indivíduos saudáveis, não cria grupos marginalizados identificados com a menos valia.

 

Uma sociedade saudável cultiva uma relação ecológica entre seus membros e faz da mais valia sua inspiração, cuidando bem de seus espelhos.
 

 

E o fato de nos incomodarmos, de nos darmos o direito de incluir, de cuidarmos daquilo em que acreditamos, de percebermos que aquilo em que acreditamos planta a nossa realidade, diz muito a respeito de que lado escolhemos viver, e nos ensina muito que a inclusão não está de lado nenhum, mas dentro de nós. O fato da mídia se incomodar com a patologia da invisibilidade social, veiculando imagens de injustiça e descaso, é um bom sinal, pois além de denunciar os maus tratos ou o próprio descaso, também nos mostra que ainda não sabemos como lidar com a menos valia em nós, por isso ela nos afeta tanto no outro; e quem não sabe como lidar com a menos valia, também não está preparado para lidar com a mais valia.

Estas questões nos apontam que o que está aberto como ferida no invisível está encapsulado no visível como símbolo. E “o que me incomoda no outro eu preciso curar em mim”.

A ferida aberta no outro dói em mim, e quando eu olho para isso e me responsabilizo, eu cuido melhor de minha vida e oriento meus descendentes para que cuidem bem de si mesmos, contribuindo com a diminuição da invisibilidade social, começando pelos cuidados da invisibilidade em família. Eu olho para os excluídos dentro de mim.

A psique é muito sábia e amorosa, e sempre encontra um viés para lidar com as doenças da alma humana. Essas urgências urbanas têm surgido como um pedido de socorro dessa alma para que todos olhem para ela dentro de si.

Deste modo, aprendemos que ainda estamos engatinhando no conceito de justiça social, que deveria abortar a ideia de piedade (se doer pelo outro porque não quero que doa em mim), porque existe uma outra solução para o laço social, que é a Responsabilidade Amorosa (que se refere à capacidade que temos em empenhar nossa intenção e energia no Amor).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 

CARNEIRO, Ana da Silva C. A desigualdade e a invisibilidade social na formação da sociedade brasileira. [V ENECULT - V Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura]. Salvador, Bahia, Faculdade de Comunicação UFBa. Disponível em: http://www.cult.ufba.br/enecult2009/19360.pdf. Acesso em 18/10/11.

COSTA, Vivian F.G.; CONSTANTINO, Mateus de Lucca. Invisibilidade Social: outra forma de preconceito. [Blog "Over Mundo"]. Disponível em: http://www.overmundo.com.br/overblog/invisibilidade-social-outra-forma-de-preconceito. Acesso em 18/10/11.

DICIONÁRIO CRÍTICO DE ANÁLISE JUNGUIANA. Complexo. Disponível em: http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/complexo.htm. Acesso em 18/10/11.

DICIONÁRIO CRÍTICO DE ANÁLISE JUNGUIANA. Fantasia. disponível em: http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/fantasia.htm. Acesso em 18/10/11.

DICIONÁRIO CRÍTICO DE ANÁLISE JUNGUIANA. Individuação. Disponível em: http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/indvidua.htm. Acesso em 18/10/11.

FORBES, Jorge. Compaixão – Parte 1. [Trechos da palestra de Jorge Forbes em vídeo produzido para o Programa Café Filosófico da TV Cultura, Espaço Cultural CPFL de Campinas]. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=lXITJQSpYAo. Acesso em 13/10/11.

FORBES, Jorge. Compaixão – Parte 2. [Trechos da palestra de Jorge Forbes em vídeo produzido para o Programa Café Filosófico da TV Cultura, Espaço Cultural CPFL de Campinas]. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=qABfrIXAS8o. Acesso em 13/10/11.

LAMA, Dalai. É preciso cultivar a piedade, diz Dalai Lama. [Vídeo sobre a visita do Dalai Lama ao Brasil feito pela TV Folha]. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=00SdXKlorL0. Acesso em 17/10/11.

PORTO, Juliana. Invisibilidade social e a cultura de consumo. Disponível em: http://www.dad.puc-rio.br/dad07/arquivos_downloads/43.pdf. Acesso em: 18/10/11.

VERRI, Isabela. et al. A Invisibilidade Social. [Blog "Jornal Sociológico"]. Disponível em: http://jornalsociologico.blogspot.com/2009/05/invisibilidade-social.html. Acesso em 18/10/11.

WIKIPEDIA. Invisibilidade. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Invisibilidade. Acesso em 18/10/11.

WIKIPEDIA. Karl Marx. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx. Acesso em 18/10/11.

WIKIPEDIA. Preconceito. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Preconceito. Acesso em 18/10/11.


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Fonte:  http://luciaureakaha.wordpress.com/2011/10/18/invisibilidade-social-psique-e-mais-valia/ 
Luciaurea Kaha - escritora e analista junguiana

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Existem razões, muitas razões para aqueles que se automutilam.
No dia 1º de março, por favor, use um band-aid e desenhe sobre ele o símbolo do Dia da Consciência sobre a Automutilação.
Vamos mostrar ao mundo o quão importante é este dia e todos os outros, para aqueles que sofrem e lutam com este transtorno.
Ajude-os, mostre seu apoio.
Obrigado.
Bas

*****

RAZÕES DA AUTOMUTILAÇÃO

Fonte: Vida de um Borderline – Admitir o problema é o primeiro passo para a cura, de Wally Osvanilda

Aqui estão algumas frases de borders a respeito da auto-mutilação:

“Para dizer a verdade, eu acho que fazia isso para que alguém observasse o fato de que eu precisava de ajuda.”

“Quando me corto, eu não preciso explicar quão mau eu me sinto. Eu posso mostrar isso.”

“Quando eu fico furioso com alguém, eu quero destruir, machucar ou matar essa pessoa.
Mas eu sei que eu não posso machucar alguém de verdade. Então eu tiro a raiva me cortando ou arrancando meus cabelos. Isso faz eu me sentir melhor no momento, mas depois disso eu fico envergonhado comigo mesmo e desejo não ter praticado isso.”

“Quando meu pai parou de me abusar, eu tive que compensar a ferida que desapareceu rapidamente.”

“Para mim, as cicatrizes são como pinturas externas do que meus pais fizeram.”

(Fonte: trecho extraído do livro Stop Walking on Eggshells)

*****

NÃO ESCONDA SUAS DORES

Fonte: Freak Butterfly’s World

Muitos pensam que pessoas que se cortam são loucas ou estão querendo chamar a atenção das pessoas, mas isto tudo vai muito além do que você imagina.

Vejamos uma definição simples do termo: “Automutilação (AM), também conhecida como Autolesão (AL), corresponde a uma forma de lesão provocada deliberadamente por uma pessoa a seu próprio corpo sem intenção de suicídio. Os atos podem ter como intenção, o alívio de emoções insuportáveis, sensações de irrealidade e apatia (geralmente causadas por experiências dissociativas como a despersonalização ). Esse comportamento é listado no DSM-IV-TR como sintoma do transtorno de personalidade borderline e é, algumas vezes, associado à doença mental , uma história de traumas e abusos, transtornos alimentares , baixa auto-estima e perfeccionismo.”(Definição pelo site: wikipédia).

Apesar de serem julgados como quem deseja chamar a atenção, a grande maioria das pessoas que se mutilam estão cientes dos seus atos e muitas vezes fazem de tudo para esconder as feridas, podendo oferecer explicações alternativas para os ferimentos. Um exemplo pessoal, quando tinha 15 anos e as feridas eram mais visíveis minha mãe me questionava querendo saber o que era aquilo, eu dizia sempre que era o Cícero (meu falecido gato) que havia me arranhado. Não sei se ela acreditava, mas não perguntava novamente.

A pessoa que usa da automutilação para se punir ou mesmo aliviar as dores psicológicas não pratica este ato com intenção de morte.

O que gostaria de passar a vocês leitores é: se você pratica este ato, ou conhece alguém, ajude!

Realmente são pessoas que necessitam de paciência e ajuda, tanto médica como da família e amigos. Não julgue sem saber o quadro clínico em que a pessoa se encontra.

Sei o que muitos passam, este aqui é meu relato, há 11 anos eu provoquei minhas primeiras feridas, e com o passar dos anos, apesar de buscar ajuda, tive diversas recaídas e até mesmo uma tentativa de suicídio do histórico, pois há horas que um simples corte não anula certas dores mentais. Por isso eu estou me expondo aqui, quero que outras pessoas consigam falar, se libertar desta dor solitária.

Mas não é só se cortando que os automitilantes se punem ou aliviam os pensamentos, há uma variedade imensa, saiba quais são:

  • Esmurrar-se, chicotear-se;
  • Enforcar-se por alguns instantes;
  • Morder as próprias mãos, lábios, língua, ou braços;
  • Apertar ou reabrir feridas (Dermatotilexomania);
  • Arrancar os cabelos (Tricotilomania);
  • Queimar-se, incluindo com cigarro, produtos químicos (por exemplo, sal e gelo);
  • Furar-se com agulhas, arames, pregos, canetas;
  • Beliscar-se, incluindo com roupas e clips para papel;
  • Ingerir agentes corrosivos, alfinetes;
  • Envenenar-se, medicar-se (por exemplo, exagerar na dose de remédios e/ou álcool), sem intenção de suicídio.

Saiba que com o tempo, estes atos se transformam em manias, e qualquer motivo é motivo para se automutilar.

Isto não é brincadeira, muito menos modinha emo! É sério e deve ser tratado como tal.

Não se torture, desabafe, busque ajuda.

(Texto by Freak Butterfly)

Nota da Luciaurea: não somente os borderlines praticam a automutilação. Bipolares e pessoas que vivem na zona entre as classificações nosográficas que ainda não receberam um diagnóstico plausível, também praticam automutilação, inclusive crianças. Que esta informação possa abranger o maior número de pessoas possível. Se você conhece alguém que está passando por uma fase ruim, seguida de automutilação, ajude-a mostrando o seu apoio. Não julgue. Tenha a paciência e a humildade para ser apenas o ouvinte. Vamos falar com liberdade e ajudar a diminuir o preconceito. Gratidão.

Fonte: 
http://luciaureakaha.wordpress.com/2012/02/28/1o-de-marco-dia-da-consciencia-sobre-a-automutilacao/


 

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Monday, 6 February 2012
posted by Luciaurea

SAÚDE MENTAL EM FOCO
Compartilhando uma experiência pessoal: porque a medicina e a máscara social não podem ser tão absolutas

Quando nos submetemos a uma terapia, vamos trazendo nossos desajustes à luz da consciência para que possam ser, num primeiro momento, reconhecidos e observados, num segundo momento, considerados, e num terceiro momento, ressignificados.

Porque ser apenas natural é seguro

Sei que nada é tão simples assim para a maioria de nós, embora eu possa escolher a simplicidade e ela possa ser introduzida em minha realidade. Eu me sinto um terreno fértil, onde idéias e atitudes são constantemente plantadas em meu solo interior, com muito trabalho e sem preguiça de efetuar as mudanças, e concomitante a essa tarefa, eu vou retirando as ervas daninhas que ficam escondidas nos cantinhos mais escurecidos de minha alma.

Quando nos submetemos a uma terapia, vamos trazendo nossos desajustes à luz da consciência para que possam ser, num primeiro momento, reconhecidos e observados, num segundo momento, considerados, e num terceiro momento, ressignificados.

Mas por outro lado, e esse é um desabafo pessoal, se fosse fácil deixar de ser bipolar ou borderline, eu já teria “escolhido” isso há muito tempo atrás. Porém, esses desarranjos mentais (o TAB e TPB), nascem de experiências traumáticas que atuam num nível muito profundo dentro de nós, em camadas ainda muito inconscientes, e geralmente são decorrentes de uma infância e adolescência conturbadas ou violentas dentro do espectro familiar, com parentes que normalmente trazem os mesmos desarranjos.

Existe uma cultura que chamo de “Cultura da Doença”, cuja cartilha nos é apresentada desde que começamos a ser formados dentro do mundo intra-uterino.  Nós somos ensinados, desde pequenos, a utilizar a doença, seja ela qual for, para chamarmos a atenção e recebermos proteção e carinho. Muitas vezes, os bebês somatizam os problemas de seus respectivos pais, e é através da somatização que o ser humano aprende a adoecer.

Então tente imaginar, uma família em que todos são, uns mais, outros menos, portadores de algum desajuste de comportamento, sendo que as crianças que nascem nestes lares, têm como exemplo, desde a mais tenra idade, uma forma de se comportar desajustada do viés social, mas principalmente prejudicial à saúde de seus moradores. Hábitos como ignorar, não manifestar o amor, distanciamento, cancelamento do outro, indiferença, irritabilidade, xingar, gritar, falar frases como “eu te odeio”, “você me irrita”, “morre desgraçado!”, “desse jeito mamãe não gosta de você”, e assim por diante, sem contar os palavrões e o estresse causado por parentes controladores… Tudo isso gera trauma, somado na vida infantil, criando um “doente da alma” na vida adulta, portador de alta criatividade e inteligência, em razão dos excessos e estímulos, porém sem um viés para se manifestar com integridade. Essa pessoa se sente “inadequada” e “fragmentada” por dentro. Aliás, esse indivíduo, assim como uma criança muito pequena, de 1 ou 2 anos de idade, ainda não se conhece, não sabe quem é, para sequer manifestar alguma coisa de si mesmo, pois não foi considerado durante a maternagem e a paternagem na fase infantil. Mas ele pode mudar isso.

Em função disto, tenho sido inspirada por algumas idéias que andam rondando a minha cabeça, e que gostaria de compartilhar com os leitores.

NÓS PODEMOS MUDAR

Partindo do princípio de que a cada dia, 100 neurônios nascem dentro de meu cérebro (saiba mais aqui), e que meu organismo é uma farmácia que possui todas as substâncias necessárias para me curar de um desarranjo “mental” (eu não gosto da idéia de separar o corpo da mente, mas vamos por partes para facilitar o raciocínio), se eu estiver consciente do foco irritativo e da cisão abertos em mim, eu posso tomar a atitude de marcar estes neurônios com metáforas saudáveis para o meu desenvolvimento como um ser humano integrado, acrescentando informações positivas em meu cérebro que atuarão a meu favor de curto, a médio e longo prazo.

Bem, continuando nessa linha de raciocínio, e me pegando como exemplo, então eu sou classificada nosograficamente como uma borderline certo? Tenho uma “doença mental” segundo a nosografia, mas não me considero uma doente. Eu me vejo mais como uma pessoa portadora de um cérebro sensível que precisa de cuidados diferenciados dos demais. Isso não me torna melhor em nada, é apenas uma diferença de funcionamento. Mas vamos partir do princípio nosográfio: eu tenho uma doença (que insisto que é mais uma forma de ser, é natural, do que uma doença em si mesma) e preciso lutar contra ela. Certo?

Errado. Quanto mais eu luto contra ”a dita doença”, mais força ela ganha dentro de mim, fazendo uso dos meus complexos para me engolir. Eu fortaleço minha crença de que ela é mais poderosa do que minha Vontade de Ser Eu. Essa crença é impressa em meus neurônios. E eles vão cumprir o seu papel. É como um complexo autônomo que existe sem minha autorização ou consciência, e faz coisas dentro de mim sem a minha aprovação. Refém do Inconsciente.

Porém se eu pensar diferenteao invés de lutar contra a doença, eu focar em ganhar mais Consciência de Mim, a doença deixa de ter tanta força, porque agora estou trabalhando com uma instância interna chamada Consciência. E na medida em que eu ganho Consciência sobre meus mecanismos de funcionamento, menos doente eu me sinto. Isso corrobora na Integração do Ego. E porque não, na Cura desse Ego, dessa Personalidade, dessa Identidade Única?

Se partirmos do princípio de que temos formas de ser, então a forma de ser que me traz mal estar pode ser ressignificada para uma forma de ser mais genuína e saudável, e eu posso manter os aspectos daquilo que continua sendo útil dentro da antiga forma de ser, transferindo-os para a nova forma de ser, como a criatividade, a inteligência, a versatilidade, a capacidade de compreender o outro, e assim por diante, pois, “a doença” nos ensina muito a respeito de nós mesmos e a respeito do ser humano – e afinal somos humanos!

O que a sociedade quer é controle. Ela quer que você e eu utilizemos a máscara, porque com máscaras de doente, ninguém precisa se importar em desenvolver a inteligência emocional, saindo de sua zona de conforto amparada pela normalidade, afinal, o que está aberto em nós não existe dentro de mais ninguém. Mas sabemos que isso é uma ilusão social. Como projeções que somos uns dos outros, isso é um grande equívoco.

Então, quanto mais Consciência eu ganho, menos a nosografia pode me classificar. E cansada de me esconder por trás da máscara nosográfia, eu posso enfim Ser Eu.

Vista-se de Si Mesmo. Essa é “a Cura”.
Que tal levar os neurônios para passear num território diferente, ao invés de ficar martelando em velhas idéias que não foram inventadas por nós? Vamos botar esses meninos para trabalhar a nosso favor
 ;)


 

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES
 

1ª] Quando em crise, qualquer um desses tipos, bipolar ou borderline, não consegue raciocinar nos moldes deste texto. Esse raciocínio só é possível quando a pessoa identifica o início da crise, bem no começo, e trabalha com a idéia que está tentando desencadear a crise, ou depois da crise, quando a pessoa já está melhor, e então ela pode trabalhar em sua ressignificação de crenças de forma consciente, com PNL ou outra técnica.
 

2ª] Este texto, inclusive, pode não ser muito bem recebido pelos próprios portadores destes transtornos, porque a máscara nosográfica traz muitas vantagens. Mas o que precisamos saber é que podemos desfrutar das mesmas vantagens sem a máscara nosográfica.
 

3ª] Nada é tão simples, nem tão rápido, mas é totalmente possível.
 

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Como recuperar a razão

 

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Tuesday, 25 October 2011
posted by Luciaurea

Neste post eu compartilho uma história de amor bem-sucedida, entre uma mulher de 32 anos, portadora do TAB (Transtorno Afetivo Bipolar) e um policial de 33. Compartilho esta história para mostrar que a amorosidade é da Alma e para Ela pouco importam as diferenças. Elas podem ser superadas. Pessoas especiais com problemas especiais podem e devem experimentar o amor. O amor não escolhe etiquetas.

A História de Daniel e Bianca
Ela: bipolar. Ele: normótico – até encontrar Bianca.

Esteja disponível para o amor

A história de Daniel e Bianca tem muito a nos ensinar.

Ela nos traz a perspectiva daqueles que vivem sem preconceito; daqueles que não servem aos rótulos ou etiquetas; daqueles que não têm medo do ridículo; daqueles que sabem aproveitar a segunda chance e viver o inusitado.

Neste post eu não vou analisar nenhum conteúdo. Deixo esta tarefa para cada um. Se você se sentir atraído ou atraída por esta história, saiba que ela constitui a base de uma realidade sonhada por milhões de pessoas que acham que o amor não pode ser possível por causa de suas diferenças.

Daniel e Bianca nos provam o contrário.

Terça insana

Bianca estava no meio de um surto de mania. Ela estava consciente de que se tratava de um surto, “via e ouvia as pessoas de minha coleção paranoica”, como costumava explicar “seu processo”. Ela não conseguia controlar, “as imagens pulavam para fora de minha cabeça e aquilo estava acabando comigo”. 

Para os familiares ela sempre falava sozinha, eles não a compreendiam muito bem e a consideravam como “a louca da família”. Naquele dia todos haviam saído de casa – para seu alívio. Sua percepção interna acusava a existência de outras pessoas discutindo com ela, oras dentro dela, oras fora dela. Ela começou a se sentir irritada com aquilo, porque sabia que não havia ninguém mais além dela dentro de casa, a não ser aqueles que habitavam sua cabeça.

Ela, então, resolveu dar um basta naquelas vozes internas e começou a falar mais alto do que elas.

Falar alto não foi o bastante, então ela começou a cantar pela casa.

Cantar não foi o bastante, então ela começou a gritar – algo bem cabuloso para chocar as vozes: “Buc_tª! Buc_tª! Buc_tª!“…

Mas isso também não foi o bastante para espantá-las, então ela gritou: “AAAArrrrhhhhgggg!!!! AAAArrrrhhhhgggg!!!!” - como uma fera tentando espantar “o mal”. Ela perdeu a noção do tempo enquanto fazia isso. Na verdade horas.

De repente a campainha toca. “Caramba! Agora tenho que fingir que sou normal”. Finge estar “normal” e vai atender a porta.

Era a polícia. “Polícia? O que eles querem aqui?” Provavelmente fora a Dona Ditinha quem chamou. “Essa velha sempre se incomoda com meus gritos”, pensou.  Olhou para o carro estacionado na frente de sua casa, um policial baixinho e barrigudo falava no rádio. O outro à sua frente era um moreno bonito e alto, parecia ser um cara legal, “Mas venhamos e convenhamos, ele estava interrompendo o meu processo! E eu ainda nem tinha resolvido minha questão com aquele povo!” - a população que habitava sua cabeça.

O policial lhe pergunta: “Senhora, boa tarde. Fomos informados de que os vizinhos escutaram gritos vindos de sua residência. A senhora confirma?”

Bianca olha o policial através da grade do portão e lhe pede um minuto. Vai para dentro da casa e volta com uma caixa de Lítio. Ela então pergunta ao policial: “O senhor conhece esse remédio?” Ele pareceu constrangido quando viu a caixa na mão de Bianca, provavelmente não estava preparado para aquele tipo de reação: “Hum…. Bem…” Então ela continua: “Isso, é remédio pra louco!” e acrescenta: “Agora o senhor me dá licença, que eu tenho um surto pra terminar!” 

Bianca volta para dentro de casa gritando, estabanando os braços e descabelando o cabelo: “Viva o clitóris! Viva o clitóris! Viva o clitóris!”  

O policial, sem saber o que pensar, mas rindo da situação, apenas entrou dentro do carro pensando: “É cada uma que me aparece!” E diz para o parceiro: “Ela é bonita!”, e volta para a DP contando “a história da garota doida”.

Naquele momento de sua perturbação, Bianca não queria nem saber se o policial que batera à sua porta entenderia que ela era bipolar e que estava “ciclada” e presa à um processo psicótico. Ela estava tão irritada consigo mesma que o que queria mesmo era chocar qualquer um. Havia recomeçado o tratamento há alguns meses e o médico ainda estava ajustando a dosagem da medicação.

Quarta espetacular

Dia seguinte, Bianca acorda, ainda na crise de mania, porém com uma sensação de “leveza”, e percebeu que estava “vestindo o corpo de novo”. A sensação de irrealidade havia ido embora.

Feliz, se sente cheia de energia para correr. Pegou o seu fone de ouvido e saiu, sentindo-se muito melhor porque as vozes também tinham parado.

Foi até a praça próxima de sua casa, que é relativamente grande, e deu nove voltas. Como as nove voltas não foram suficientes, resolveu ir até o centro da cidade para correr e estar entre as pessoas.

Bianca nem percebeu que a delegacia de polícia estava no quarteirão que escolhera praticar seu esporte. Distraída, não notou que passou pelo policial que havia ido à sua casa no dia anterior. Ele fica observando como ela corre, admirando seu jeito tão despojado, e comenta com os colegas de trabalho: “Aquela é a garota”. E ficam todos olhando para ela.

Ela dá a primeira volta e nem nota que tinha uma platéia masculina lhe observando. Ela dá a segunda volta e percebe que está sendo observada, mas não olha para ver quem era. Na terceira volta, a platéia ainda está lá, então ela se invoca e resolve dar uma espiada com o rabo do olho – e percebe o grupinho sorridente.

Na quarta volta, um deles se destaca do grupo lhe dirigindo a palavra, enquanto os outros se afastam: “Se sente melhor?” Ela então, tira o fone de ouvido para entender o que o cara estava falando, quando identifica surpresa que o sujeito “é o cara policial de ontem!”

Ele repete sorrindo: “Se sente melhor? Você parecia meio nervosa ontem”. Bianca fica alguns segundos a processar o que ele estava tentando lhe dizer, quando ele percebe e interrompe seu processo outra vez:“Desculpe, eu não me apresentei, meu nome é Daniel.” E lhe estende a mão.

Bianca ainda sem entender, achando que o policial está tirando uma com a sua cara responde na defensiva: “O que você quer Daniel?”Olhando para a mão do policial, que estava começando a se recolher.

Ele diz: “Bem, me desculpe novamente, acho que eu não fui muito claro. Eu só queria te conhecer. De verdade.” Abrindo os braços, gesticulando com as mãos, como quem não sabia direito o que falar ou fazer.

Bianca percebe essa reação em Daniel e dá seu primeiro sorriso. E responde: “Tudo bem Daniel. Eu sou Bianca.” E estende a mão para cumprimentá-lo.

Os dois dizem juntos: “Muito prazer.”

Depois de alguns segundos sentindo a força do aperto de mão de Daniel, “Ele deve estar fazendo isso de propósito”, Bianca retira sua mão da dele e desvia o olhar para baixo. Ele coloca a mão na cintura, olha para os lados, olha para ela…

Naquele momento zilhões de pensamentos inundaram a cabeça de Bianca. “O que aquele cara queria afinal?”… “Que tipo de louca ele pensa que eu sou?” Finalmente conclui em pensamento “Hum… Homem de farda…” E olhou de volta para ele. Ele então quebrou o silêncio:

“Você parecia nervosa ontem.”

Bianca responde rindo: “É… Eu sou bipolar… Isso acontece…” E arremata sorrindo, sem perceber, falando baixinho, mas pensando alto: “E viva o clitóris… Onde você estava com sua cabeça Bianca?”, se lembrando da frase do dia anterior.

Daniel escuta, apesar dela ter falado muito baixo e começa a rir. Ele achou aquilo muito genuíno por parte da garota, no que ele começa a dizer sorrindo, sem hesitar: “Você é mesmo muito corajosa! Eu adorei isso! Me diga, posso pegar seu telefone? Estou trabalhando agora e daqui a pouco meus amigos vão retornar pra gente ir almoçar. Posso te ligar mais tarde?”

Ela pensa “Por que não?” 

A vida a dois

O primeiro encontro de Daniel e Bianca foi numa sexta-feira, num barzinho badalado da cidade. O segundo foi no cinema. O terceiro no parque ecológico. O quarto…

Hoje eles são casados há 5 anos, Bianca melhorou seu quadro de saúde com a psicoterapia e há 1 ano está sem surtos. Daniel a apóia em sua jornada e ela o apóia na dele, pois há dias em que até ele surta com a violência dos casos com os quais precisa lidar. Ambos fazem terapia de casal para melhorar a qualidade do relacionamento e separar as coisas que precisam de limites.

Daniel não consegue pensar em sua vida afetiva, atualmente, sem a presença desse amor que ele descobriu através de Bianca: “Desde o dia em que coloquei meus olhos nela, eu sabia que ela era especial. Não porque ela sofre de um distúrbio, mas porque ela é capaz de compreender e amar como ninguém mais o faria, um mero normal como eu.”

E viva a diversidade.

:-)

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