Blog da Monica Martinez
Wednesday, 14 September 2011
posted by Monica


            A cada ano elegemos um livro de Joseph Campbell para estudar ao longo de nossos quatro encontros anuais. Este ano optamos por O Vôo do Pássaro Selvagem (Editora Rosa dos Tempos), de 1951, o primeiro livro que o mitólogo estadunidense escreveu após sua obra mais famosa, O Herói de Mil Faces.

           
           Tem sido uma jornada encantadora. Um dos pontos que mais me chamou a atenção nesta obra foi a visão do mitólogo sobre a personalidade humana. Em particular quando ele cita o antropólogo húngaro Géza Róheim (1891-1953) para dizer que houve uma época em que o ser humano “era livre, sem peias, verdadeiramente autoconfiante, e adulto” (página 186).

           
           Qual seria a diferença entre um adulto daquela época e de hoje na visão do autor? Lembrei-me do filósofo francês Gilles Lipovetsky que, em seu livro mais recente, A Cultura-Mundo: resposta a uma sociedade desorientada (Companhia das Letras), defende a ideia de que vivemos em um mundo que prioriza o individualismo, a tecnologia, o capitalismo e o consumismo. Neste universo fragmentado, ainda que globalizado, o ser humano estaria hiperindividualizado, como diz Lipovetsky.

           
            Em 1951, Campbell recorria às cavernas paleolíticas e à antropologia para explicar a questão. Róheim, autor de Magic and Schizophrenia (International University Press, 1955), tido como o fundador da antropologia psicoanalítica, ficou nove meses em 1929 com os nativos australianos Arrernte and Pitjantjatjara. Destes últimos, Campbell faz uma citação:


Nunca me esquecerei das crianças Pitjantjatjara, que aos oito ou 10 anos vagueavam pelo deserto e eram praticamente auto-suficientes. Um menino, armado de lança e olhos vivos, pode capturar o que precisa em matéria de animais pequenos e continuar assim de manhã até a noite. Nem mesmo um homem adulto pode fazer muito mais do que isso. A característica notável das economias primitivas é a ausência de uma autêntica diferenciação de trabalho. Uma divisão de trabalho incipiente ou rudimentar talvez exista, de acordo com princípios sexuais ou de idade, e pode haver alguma especialização incipiente ou em tempo parcial em questões de ritual e magia. Falta, porém, a verdadeira especialização. Significa isso que todo indivíduo é, tecnicamente, um mestre de toda a cultura ou, nos casos em que qualificações modestas são necessárias, de quase toda a cultura. Em outras palavras, todos os indivíduos são realmente auto-suficientes e adultos.


Nós, contudo, não crescemos de forma tão simples assim. Se indica alguma coisa, o testemunho da antropologia demonstra que o homem primitivo era livre, sem restrições e realmente auto-suficiente, em comparação com o homem medieval ou moderno (página 172-173).


Campbell prossegue com a ideia:


(...) enquanto nos acampamentos de caçadores a comunidade era constituída de um grupo de indivíduos praticamente equivalentes, todos eles no controle de toda a herança, nas comunidades maiores e muito mais diferenciadas que surgiram quando a agricultura e a criação de animais possibilitaram o surgimento de uma estrutura social permanente, mais ricamente articulada, a vida adulta consistia em adquirir, em primeiro lugar, certas artes ou habilidades especiais e, em seguida, a capacidade de suportar ou conviver com a tensão resultante – uma tensão psicológica e sociológica – consigo mesmo (como sendo meramente a fração de um todo mais amplo) e com outros indivíduos de treinamento, poderes e ideais inteiramente diferentes, que constituíam os outros órgãos necessários do corpo social (CAMPBELL, 1997: 173).

           
           O ponto que Campbell destaca é o de que esta tensão de existir como uma fração e não como um todo orgânico – que nenhum dos caçadores primitivos teve de suportar – é vivenciada como nunca pelo ser humano atual. Só para citar o plano mais cotidiano da tecnologia: quem de fato sabe explicar como, ao apertar alguns botões em nossos aparelhos celulares, ele acessa esta esfera nebulosa que é a internet e dela sai com informações, participações em redes sociais, mensagens e, até, ligações telefônicas? Para uma parcela grande da comunidade brasileira, que usa todo dia este recurso, trata-se de algo mágico. O que de fato acontece com o cérebro dos usuários ao ser exposto às ondas eletromagnéticas do aparelhinho? A verdade é que nem os cientistas ainda possuem um consenso sobre o assunto.

           
           De um lado, esta hiperfragmentação representa o mais recente segundo na saga humana. Nossa espécie está nesta trajetória evolutiva há mais de dois milhões de anos, porém estamos arraigados à terra, como agricultores ou moradores de cidades, há pouco mais de dez mil.  Campbell diz que nossa psique evoluiu majoritariamente no contexto dos povos caçadores, dotados de uma psique mais integral. O resultado, segundo ele, “não é, talvez, apenas uma fórmula altamente especializada, não normal à psique da espécie, mas, sim, um conjunto de tensões, medos e expectativas geradas por uma sociedade baseada em uma economia agrícola (CAMPBELL, 1997: 175).

           
            Ele prossegue:


E podemos perguntar, também, se hoje, quando esse tipo de economia está cedendo lugar a outra, baseada na indústria, e a imagem cosmológica comensurável com o horizonte agrícola foi despedaçada para sempre – se hoje, nesta próxima grande era de transformação, as imagens geradas naquele antigo período de crise continuam conosco e, se assim, para quem e por quê?” (idem).

           
            Por ter falecido em 1987, Campbell embarcou muito levemente na aventura digital humana. O que ele pensaria desta evolução da fragmentação da psique humana num mundo marcado agora pelo não tempo e não espaço? Penso que sua receita continuaria sendo a testada e aprovada por seres humanos de todos os tempos: o uso de narrativas e de rituais para ancorar os novos mitos, agora com teor planetário, no contexto local de cada povo.

           


Monica Martinez é coordenadora do Núcleo Granja Viana-SP da Fundação Joseph Campbell. Contato:HTTP://fundacaojosephcampbell.blogspot.com

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4 comments


Tony
Mônica, realmente não fomos jogados aqui. Eu não diria que temos a idade do planeta pois a vida só surgiu depois de alguns milhões de anos da sua formação. Mas tudo, cada movimento, cada chuva de meteoros, cada alteração de órbita e mais inúmeros eventos que ainda desconhecemos, contribuiram para surgimento da vida, faz parte portanto, em termos, do que somos. Minha questão é, ser saudável ou não é relativo. Por exemplo, uma chuva de meteoros hoje seria uma catástrofe, porém foram justamente estes meteoros que trouxeram a água para a Terra. Em nenhum outro lugar dentro da atmosfera poderia ter formado tal composição molecular H2O se não no vácuo do espaço.

Este entre outros eventos possibilitaram o desenvolvimento de vários tipos de vida. Analogamente podemos extrapolar este mesmo raciocínio às mudanças comportamentais que inicialmente podem apontar como não saudáveis, mas que, de alguma forma produzirá um efeito digamos “saudável” no futuro, como aconteceu com a vinda da água.
8 months ago
Visitor
Obrigada pelos comentários. De fato, Tony, num contexto mais sistêmico -- e considerando que não fomos "jogados" aqui, como Campbell diria --, teríamos a idade do planeta. Eu me referi ao Homo Habilis. Um abraço, Monica
8 months ago
Simone
Não parece estarmos vivendo mesmo uma era de saúde psíquica, mas eu penso que uma forma de nos sairmos bem desse enrosco é pondo a nossa história a limpo, entendendo nossas imagens internas e compartilhando-as com um grupo tão interessado quanto nós.
8 months ago
Tony
Mônica, eu não sei porque, no texto, foi considerado apenas 2 milhões de anos de evolução da nossa espécie. Na verdade estamos num processo evolutivo a mais de 6 Bilhões de anos, e nesta escala tudo muda significativamente. A origem de nossa espécie obviamente remonta desde as primeiras cadeias de DNA formadas no caldo primordial. Este foi o ponto de partida e justamente devido a isso qualquer análise do antes e hoje se torna altamente complexo e multidisciplinar.

A arqueologia, biologia entre outras áreas da ciência ainda procuram por respostas quanto nossos verdadeiros ancestrais e antes disso é impossível saber sobre qualquer tipo de estratégia comportamental que tenha influenciado no que somos hoje.

Além disso, não sabemos ainda nem 5% dos eventos climáticos, alterações ambientais e fenômenos atmosféricos que ocorreram ao longo deste período. Eventos os quais podem ter transformado totalmente todo o sistema de vida no planeta.

O que eu quero dizer com isso tudo é que, somos resultado de inúmeros eventos de várias grandezas os quais influenciaram em todos os aspectos nossas estratégias de sobrevivência, e pelo visto, o ser humano tem resistido e se adaptado com sucesso a todos eles. Uma prova é que estamos aqui!

Individualismo está fortemente ligado ao instinto de sobrevivência, existe e sempre existirá, pois caso contrário nossa espécie já teria se extinguido. Tecnologia é evolução, hoje engloba várias áreas da ciência, porém as primeiras ferramentas, utensílios, armas e sistemas de plantio e de criação de animais (equipamentos agropecuários) criados pelo homem também são considerados “tecnologia”. Capitalismo, acúmulo de bens e o consumismo, usufruir de tais bens, sempre existiram e acredito que sempre existirá.

E foi justamente todas estas características do ser humano que o levou a esta era digital e também a duas grandes guerras as quais, embora de proporções incomparáveis aos efeitos de todos grandes eventos climáticos, atmosféricos e geográficos que o planeta enfrentou, causaram uma mudança significativa em nossa sociedade.

E foi justamente a tecnologia digital que nos anos 40/50 com Alan Turing e seu computador Manchester conseguiu conter ataques aéreos dos nazistas e salvar a Inglaterra de uma catástrofe a qual poderia abalar toda a defesa dos aliados e consequentemente fortalecer o terceiro reich. Eles talvez dominariam a bomba atômica e muito provável Campbel não teria escritos seus livros...

Quantas atividades, alimentos antes considerados não saudáveis passaram a ser saudáveis? Como nos comportamos hoje pode indicar como não saudável baseando-se no passado, porém o quê garante que não seja vital para o futuro. Enfim, o que é saudável?
8 months ago

YuBloggers

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