Alguns anos atrás, minha alma cigana havia levado meu corpo sedentário prá um refresco nas maravilhosas praias de areia branca e águas mornas das Alagoas.
Entre um bico e outro, me chamaram prá trabalhar de cozinheiro num curso prático de Tantra. Esses cursos sempre atraem mais as mulheres que os homens e na falta de contingente masculino, tive de acumular duas funções. Além de fazer a comida pro bando todo (umas trinta pessoas), eu fui convidado a formar par com algumas mulheres nas horas de folga do fogão.
Não me pergunte se o cheiro de alho e cebola nas minhas mãos atrapalhou em alguma coisa. Ninguém reclamou... Pois bem, parceria vai, parceria vem, a gente vai se interessando mais por umas pessoas e menos por outras. A tal da química que rola entre os corpos. E estava rolando muita química durante aquele curso... Eu é que sou mais recatado, e, deus-que-me-livre, nunca participei daquela coisa de todo mundo nú e cheio de óleo, um se esfregando no outro. Isso não é prá mim. Meu negócio é só a dois, sempre foi. Mais que dois eu perco a noção, dá tilt no meu sistema sensorial...
Mas como eu ia dizendo, me interessei por uma menina (em outra história eu contarei os detalhes), e descobri que ela havia morado pràticamente na mesma rua durante nossa infância em São Paulo. Acabado o curso ela me convidou prá conhecer sua pousada na Praia da Jatiúca, na época uma região promissora em Maceió. Quando ela me deu o endereço, alguma coisa apitou dentro de mim: conheço o nome dessa rua onde ela mora.
Logo minha memória se refrescou. Uns dias atrás, minha mãe sabendo que eu ia prá Maceió, havia passado o endereço de uma tia que é tida pela família como ovelha negra. Era a mesma rua! Claro que minha intuição me obrigou a ir visitar a tia perdida, eu não poderia perder essa chance.
Susto foi pouco quando os olhos da velha deram comigo à sua porta, (eu quis fazer surpresa e nem telefonei). Cheguei a temer pela bomba que fazia correr o sangue nas veias daquele frágil ser. Ela se recuperou e fizemos muita festa, falando mal de pràticamente todos os parentes. Minha tia viu em mim um aliado naquele momento, e percebendo meu gosto pelo esotérico, começou a me mostrar livros e a vomitar tudo que ela sabia do assunto. Carlos Castañeda (A Erva do Diabo), Aldous Huxley (As Portas da Percepção), Paramahansa Yogananda, Maharish, Osho Rajneesh, Louise Hay e finalmente Deepak Chopra (O Retorno de Merlin). Não era pouco o que aquela senhora conhecia!
Mas ela, tomando meu espanto como interesse, continuava a falar e a querer me mostrar o quanto estava inteirada daqueles assuntos. E não se deu conta que ia passando dos limites. As horas iam se passando e a velha agora já estava no ponto de querer me doutrinar, dizendo que eu devia me cuidar com isso e aquilo e que a magia da chama violeta era melhor que magia branca da manhã, e por aí afora... E minha paciência se esgotando e eu procurando uma desculpa prá me mandar dali... Até que ela mesma deu a deixa ao me perguntar o que eu tinha assimilado daquilo tudo.
Mal sabia ela que eu havia acabado de sair de um curso de Tantra e que minha taxa de inibição andava perto de zero. O que eu fiz naquele momento foi baixar as calças (eu estava sem cuecas, que no calor de Maceió eu me dava esse luxo), e pus à vista meu órgão murcho de tédio de escutar as palavras dela.
A tia teve um ataque histérico e berrava a plenos pulmões___ "Que coisa mais feia, que coisa mais horrorosa, eu nem me lembrava como era horrível o pirulito do homem! Faz mais de quarenta anos que eu não vejo essa nojeira! Você é um sem vergonha! Um cara-de-pau! Um mau caráter!"...
Não é preciso dizer que eu peguei meus pertences e deixei a velha gritando sòzinha na terceiro andar de um prédio onde naquele dia os moradores, se não sabiam, descobriram que eram vizinhos de uma doida.
Nunca mais fiquei sabendo dela, nem tive notícia do episódio através de nenhum parente. Acho que uma das grandes vantagens dessa minha família é que botamos tudo prá fora e não sobra nada prá alimentar a mágoa e o remorso... Viva la sangre española!