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Story

                                                    

A criança dentro de mim, hoje, tem a forma de um gato de pano... Explico.

Ontem à noite, tomando lanche com minha esposa, não sei por que cargas d'água, desandei a falar prá ela dessa minha sensação de não fazer parte de nenhum grupo de me sentir um ET em qualquer lugar. Talvez até por conta disso tenha passado tantos anos escondido no mato, prá ver se me encontrava... não encontrei...ainda.

Pois então, o assunto veio à tona de novo ontem à noite. E minha esposa, metida a psicóloga que é, foi logo perguntando__"Qual a sua lembrança mais antiga dessa sua sensação de "não fazer parte"? Lembrei imediatamente dos meus doze anos, época em que resolvi cair fora de duas coisas que achava insuportáveis: as reuniões do Grupo Escoteiro Lorena, e as missas no Colégio Assunção.

Ela retrucou perguntando__"Mas prá você se sentir de fora de tudo, deve ter acontecido alguma coisa muito forte, um fato determinante, veja aí se você se lembra!".

E eu me lembrei na hora. Voltei prá época em que eu tinha dez anos.

Fui soterrado por uma avalanche de emoções. Vi como se fosse hoje, meu pai me culpando pelo acidente em que meu irmão Rogério teve queimaduras em 90% do corpo, e passou mais de tres meses no Hospital da Clínicas em São Paulo, lutando entre a vida e a morte. As lágrimas e os soluços me tomavam enquanto eu recontava a história prá ela. Tive de interromper várias vezes.

Meu pai não relou a mão em mim, mas suas palavras eram como que chibatadas de um carrasco em uma vítima impotente. Eu nunca havia visto meu pai daquela maneira, possuído de tamanha raiva. E até ontem eu não havia me dado conta de como essa experiência me marcou. Na época eu engoli tudo, e levei todos esse anos prá vomitar a coisa de volta. Não sei como essa bronca afetou minha vida, mas com certeza não serviu prá melhorar minha fé na espécie humana.

Resultado é que depois da choradeira e da catarse que tive, minha esposa sugeriu que eu passasse a cuidar desse menino de dez anos, que tirasse a mordaça dele, que o pegasse no colo, que fizesse o que fosse preciso prá cuidar da ferida tão antiga. E prá que eu não esquecesse do menino, ela me presenteou com um gato de pano com uma cara de gaiato dizendo que ele tem que andar sempre comigo. Se eu já me sentia esquisito antes, imagine agora desfilando com um gato de pano por aí...

Comments

1 year ago

:)

1 year ago

com o zoio em você é Chico.???heita que não quero criar um gato vigia desse não.Sempre na espreita.s.rsr

1 year ago

Marcia, o gato mora, agora, em cima do criado-mudo, ao lado da minha cama...

1 year ago

Que bom ler isso sabe.Mais um ET.s.rsr Somos um estranho a nós mesmos Chico.Temos várias caixinhas dessas...vasculhar pode ser dolorido, mas não fazer as pazes com ele é desastroso. O segredo é procurar fazer amizade com esse outro a fim de minimizar os estragos que ele pode fazer em nós e nos outros.
E podemos sim passear entre o menino, o homem, o filho, o marido, cuidando de todos eles na medida.

E..não é por nada não, mas kd seu gato?

1 year ago

Eu me sinto um ET, Munik, desde que me conheço por gente. Hoje em dia está mais light, depois que comecei a falar disso está diminuindo a estranheza entre os outros e eu...