Story

Me criei numa cidade em que o sapateiro era italiano, o padeiro português, o afiador de facas, que passava tocando uma gaita, era espanhol, a cabeleireira da minha mãe, japonêsa, a pastelaria era de um chinês, meu melhor amigo um judeu da polônia, meu vizinho de um lado era argentino, do outro, libanês.

Prá mim, o mundo sempre foi pequeno. Os sotaques diferentes nunca feriram meus ouvidos, pelo contrário, sempre soaram como uma música que me remete a um tempo em que tudo era descoberta, um tempo em que eu nem imaginava que as pessoas que habitavam o bairro em que eu cresci, tinham um passado em algum lugar bem longe dali.

Ali, na inocência dos meus dez anos de idade, todo mundo era amigo e se destacava por uma qualidade que os fazia especiais e muito queridos. Quando alguém diz que não suporta argentinos por que eles são isso e aquilo, não gosta de chineses pois eles são muito sei lá o que, eu penso comigo __ esse cara devia ter dado um pulo no meu bairro lá pelos idos dos anos 60.

Será que as coisas mudaram tanto de lá para cá?





Comments

11 months ago

"Ali, na inocência dos meus dez anos de idade, todo mundo era amigo e se destacava por uma qualidade que os fazia especiais e muito queridos"

Essa tbm é a lembrança que tenho de minha infância...

1 year ago

1 year ago

No tempo que nasci existiam muito mais "seres humanos" do que existe hoje.
Mudou e muito, já não existe mais o respeito que existia a algumas decadas passadas, a tempos as famílias podiam ir a estádios assistir e torcer pelo seu time sem medo de serem vítimas de bandidos travestidos de torcedores.
À décadas, professores, pais e até amizades eram muito mais respeitados(as), hoje não sabem o significado dessa palavrinha, só querem saber de badernar e ver o sangue correr... lamentável será o destino, o futuro de nossos filhos e netos nesse mundo cão.

2 years ago

Me criei numa cidade em que todo mundo era de lá mesmo. Um sotaque diferente chamava a atenção e provocava a curiosidade de todos. Mas a reação mais forte não era de crítica, mas de admiração, como se os "estrangeiros" fossem quase um deus.

Aqui, o aspecto negativo dessa relação era o revés do que você fala, Chico. O que havia uma desvalorização da nossa cultura local, por nós mesmos.

Ainda bem que as coisas mudaram muito de lá pra cá!

2 years ago

Nasci muito cedo. O meu mundo ideal é um mundo onde tudo foi miscigenado. Não há mais amarelos, vermelhos, brancos, cafusos, negros, mas sim uma tonalidade só de pele e um tipo só de etnia: o hiper-mega-blaster mestiço, onde ganha quem tiver maior mistura. Sou contra formulários que solicitam a etnia da pessoa, a cor da pele, o tipo de cabelo, o tipo de olhos. Segregação racial é uma merda.