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Ainda não foi dessa vez...

in "o medo da morte"

Story

Foi a primeira e única vez que senti medo de verdade. Imagine você, eu sòzinho na mata, um doido com um facão na mão, gritando atrás de mim que queria me matar! Eu congelei de medo, e num piscar de olhos que pareceu uma eternidade, revi todos os meus valores, tomei um banho de vida, senão já era, eu teria ido embora. Mas, ainda não foi dessa vez...

Tudo começou com uma amiga que me trouxe de presente um viciado em crack prá passar uns tempos em contato com a natureza. Assim o cara ficava longe da droga, das más influências e quem sabe eu não inspirava o rapaz a se "consertar". No fim da história quem se consertou fui eu...

No início não vi nada de errado com o Chaves (vou chamá-lo assim prá facilitar) que foi morar numa casa abandonada, a uns 300 metros da minha. O rapaz era interessado em línguas, estudava japonês e sabia um pouco de alemão, gostava de desenhar mandalas, fazia pão integral, escutava a rádio Cultura FM, logo que chegou já foi roçando o mato prá fazer uma horta só prá ele, enfim, tinha um perfil que não me parecia nada com alguém que se mata aos poucos com esse flagelo que é o crack. E ainda por cima me ajudava carregando troncos prá construção de uma cabana.

Resultado é que nos tornamos amigos, abri minha casa prá ele, já o considerava como um irmão. Até que um belo dia percebi que faltavam livros da minha estante. Não precisei de muito prá descobrir que fora ele o autor do furto. Fui aos sebos da cidade e lá estavam os livros. Conferi a descrição do vendedor, era ele mesmo!

Tirei satisfações com o Chaves, que naturalmente não gostou, e entendi que era melhor me afastar, quem sabe ele não sentia a falta, se arrependia e voltava a me procurar... Doce ilusão. Ele caiu na vida, voltou prá cidade e Deus sabe o que aprontou.

Um belo dia, eu tranquilo em casa e me aparece um cara estranho falando em grunhidos. Eu não me assustei porque não me assusto com gente estranha. Mas levei um susto quando a figura se declarou ser o Chaves! Era outra pessoa! Eu posso afirmar que era o coisa-ruim à minha frente! Já fui ficando velhaco, ele com aquele papo de que precisava de grana prá pagar dívida, que tinha gente ameaçando de morte... foi aí que soou uma campainha que me avisou:

__Chico, se livra desse cara, junta seus documentos, dinheiro e celular e dá o fora. Nem olha prá trás!

Foi o que eu fiz, esperei ele ir no banheiro uma hora, e saí de fininho. Nessa hora eu não via nada. Eu não podia olhar prá trás, me dizia a voz, que de repente foi sobreposta pela voz do Chaves gritando que ia me matar! Nessa hora foi que nem pesadelo, as pernas não se moviam, ou pelo menos eu tinha a impressão de que elas estavam paralisadas.

E então, pela primeira vez na vida pude experimentar o medo real. Eu podia ser morto ou matar naquela hora. Mas eu não queria prá mim esse peso de viver com uma morte nas costas! Então corri morri acima, envolvido pela emoção e nesse momento, toda minha vida passou por um questionamento. Eu queria viver! E num lampejo vi que teria de deixar prá sempre aquela que fora minha casa por muitos anos. Foi uma trauma muito grande.

Nunca mais vi o Chaves, apesar de morarmos hoje na mesma cidade. Hoje agradeço ele ter desempenhado esse papel de perseguidor, pois à partir de ocorrido abriram-se muitas possibilidades em minha vida. A força que ele empregou prá me explusar de lá, foi proporcional à minha inércia de não querer ver que minha vida não tinha mais sentido isolado no meio da mata.

Obrigado Chaves! Se não fosse você eu talvez não estivesse aqui fazendo algo que me dá um grande prazer: contar histórias.

Comments

10 months ago

Ostra e caranguejo podem viver em simbiose? Tenho cá minhas dúvidas...

10 months ago

É mesmo, Chico. quase isso mesmo...eu falei 'ostra" -rssr

10 months ago

Quase isso, Dalsan, quase isso!

10 months ago

Caranguejo obrigado a sair da ostra pq outro caranguejo veio mais forte...rss...lei da selva mesmo , né Chico?

10 months ago

André, como tudo na vida, sempre existe o positivo e o negativo, eles sempre andam de mãos dadas...