Conheci a Teresa e sua família numa praia no nordeste brasileiro, morando numa casa de pau, coberta com folhas de buriti. Me contou que ela o companheiro ficaram em Portugal durante quase um ano, num ponto de ônibus na beira de uma estrada, esperando prá ver o que acontecia. Tinham jogado fora todos documentos, deles mesmo só a roupa do corpo.
Contavam com a bondade alheia, aceitavam tudo que chegava até eles. Nunca faltou comida, e o João, o filho mais velho, que vivia babando e assaltando quitandas prá comer batatas cruas, nasceu nessa época. Um dia apareceu uma proposta de velejar até o Brasil. Eles embarcaram e chegaram ao sul da Bahia.
De novo sentaram na beira da estrada, mas dessa vez tinham um objetivo: Jeriquaquara. Descolaram um jegue prá carregar a criança e as coisas que ganharam da bondade e compaixão brasileiras, e seguiram rumo ao Ceará.
No caminho se juntaram a um ex-dono de circo, que fez o segundo filho na Teresa. O Fabio, marido dela, achou interessante dar um pouco de cor escura na prole da família branquela. O Vandir, o novo amigo, tinha desistido do circo. Ficou desgostoso depois que mataram a única atração de que dispunha, um casal de cobras. Ele havia entrado num bar e deixou as cobras do lado de fora, tomando ar. O caminhão do lixo as levou enquanto ele enchia a cara.
Seguiram os quatro até o Ceará, a viagem demorou mais de ano, eles não tinham pressa. Lá chegando acamparam nas dunas, uma das atrações turísticas da cidade. Foram expulsos, confundidos com ciganos. Não protestaram, e seguiram em diração a Tatajuba, onde os encontrei, já com a Liliane, uma moreninha muito linda, filha do Vandir. A casa deles era um abrigo formado com alguns troncos e folhas de buriti. Todos tinham marcas de picadas de inseto e os cabelos pareciam panos de chão que não viam água há muito tempo.
Conversei com eles a tarde toda, incentivei a turma a escrever um livro sobre as aventuras deles, assim podiam arrumar uma grana prá melhorar a vida deles. A Teresa, sem titubear me respondeu.
__ Mas Chico, se a gente for escrever sobre a nossa vida como é que fica a vida? Não dá prá fazer as duas coisas ao mesmo tempo, "capice"?
Segui meu caminho pensando se eu teria a mesma coragem que esse povo.
1 month ago
Chico, acredito na lei do karma. Mas não podemos sair por aí gerando crianças sem ter como cuidar. Até determinada idade, nossos filhos são nossa responsabilidade. Nós geramos, nós somos responsáveis. Há não ser q aja algum comprometimento mental dos pais.
1 month ago
Cintia, se você acredita na lei do Karma, então está tudo certo, não é? De uns tempos para cá eu parei de achar o que é certo e o que é errado para o outro. Já comigo é outra coisa, eu consigo fazer minhas escolhas entre o bem e o mal. Mesmo assim, quando o mal vence, tbm tá certo, eu tinha que passar por aquilo, só não sabia que tinha que ser daquele jeito pra eu poder entender e não repetir da próxima vez.
1 month ago
Como conto ė muito bacana. Mas algo de muito forte ocorreu com essas pessoas, para tal ruptura. Eles são adultos e tem direito de escolha. Mas, ficar colocando criança no mundo nesse estado de miséria, a miséria foi escolhida por eles, é total irresponsabilidade.
1 year ago
Sei lá, Cris. Só sei que ela é européia e a cabeça deles lá é bem diferente da nossa aqui. Boa pergunta, ela desistiu de tudo ou aceita tudo? Não sei...
1 year ago
Quanto desprendimento...
De onde será que vem? De muito infortúnio?
De desistir de tudo? De aceitar tudo?