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Story

Quem viaja de carona, com certeza conhece esse sistema, em que há um combinação prévia entre caroneiro e caronista, sobre destino, percurso, quem paga o que, etc... É um tipo de serviço, com porta aberta, que só faz isso, juntar as partes, cobrando uma pequena taxa. Funciona super bem na Europa e Canadá. No meu caso, não posso dizer que funcionou super bem, mas pelo menos cheguei vivo ao meu destino...

Estava eu em Quebec Ville, Canadá, um frio de doer os ossos, eu nem pensaria em ir prá estrada pegar uma carona no meio daquela neve toda... Ai me lembrei desse serviço, fui ao escritório do que eles chamam ali "autostop". Logo na entrada, dei de cara com um painel onde havia um anúncio de alguém procurando companhia de viagem prá atravessar o Canadá. Anotei o número do telefone, e já saindo da loja a atendente me advertiu, ___"Monsieur, os anuncios do painel não são de nossa responsabilidade, são pessoas que não estão cadastradas, pode ser perigoso viajar assim!"

Fiz ouvidos moucos, como também fiz vista grossa prás letrinhas miúdas do meu anúncio no painel. Eu estava radiante, ia atravessar o país ao módico custo de rachar o combustível! Um achado! Liguei para o número anotado, falei com uma voz agradável de mulher, combinamos a viagem para dali a alguns dias.

No dia seguinte, passada a euforia, a paranóia começou a infiltrar-se em meus pensamentos. E se fosse uma armação? E se me levassem prá um ermo, (o que não falta no Canadá são ermos), e se me roubassem e me deixassem nú no meio daquele frio!?!  Peguei o telefone novamente e liguei prá mulher. Marquei encontro, sob protestos dela, que dizia não ser necessário nos conhecermos. Ora, ora, ora, aí é que fiquei desconfiado mesmo!

A mulher do telefone era uma menina de 26 anos, muito simpática, meu desconfiômetro baixando prá perto de zero novamente, quando ela me pergunta se tenho muita bagagem, pois Martine e seus dois sacos de ração vão ocupar todo o espaço no banco de trás. O quê!?! Sacos de ração? ___"Oui monsieur, Martine vai viajar atrás do senhor!" Eu acabara de ser informado que Martine, uma rotweiller (uma gracinha, um doce de cachorro, segundo a dona) iria ser nossa companheira de viagem...

Pensei rápido, e prá não parecer muito medroso disse a ela que tudo bem, claro, eu tinha só uma mochila, e o se o rotweiller era manso não tinha problema nenhum... Ainda bem que ela não olhou minhas pernas naquela hora...

Já na hora de nos despedirmos ela me vem com outra. Outra companheira de viagem...Desta vez era Angelique. Ela havia esquecido de dizer que Angelique, um anjo ela afirmou,  ia conosco também. Quem seria  Angelique, me perguntei? Ao que ela me respondeu, vendo minha cara de espanto:___"Não se preocupe, ela vai dentro de uma caixa de vidro, com aquecimento: é uma serpente da Califórnia, precisa de aquecimento, não é venenosa, não tem perigo!".

Naquela hora eu ia desistir da carona, mas não deu tempo, a moça engatou uma primeira e me deixou atônito, paralisado ali na calçada!  Claro que mais tarde eu fui me acostumando com a idéia, repetindo o mantra de que os animais eram mansos, de que afinal eu era um homem, e chegado o dia lá fomos nós quatro em direção ao oeste canadense!

Uns mil quilometros já rodados, o carro já rescendendo a peido de rotweiller, eu duro, com medo de fazer um movimento brusco e assustar a Martine, chegou a hora do merecido repouso. Paramos num daqueles motéis de beira de estrada e eu não tinha nenhuma dúvida de que os bichinhos de estimação da minha amiga iriam dormir no carro, jamais dentro do quarto conosco. Doce ilusão. Os animais não podiam de jeito nenhum ficar sozinhos naquele frio, iriam congelar! E não era só isso. Havia mais uma pessoa que havia aparecido durante a viagem. Minha caroneira, com medo que eu desistisse, combinou com outra motorista de seguirem em comboio as duas. Eu já esperava tudo àquelas alturas.

Protestei inutilmente, dizendo que com um cachorro dentro do quarto eu não ia dormir direito e ela tentando me sossegar disse que não, que o rotweiller ficaria no banheiro. Meu Deus, mas eu levanto prá fazer xixi à noite, como é que fica isso? Acabamos amarrando a Martine no pé da cama dela...

Tudo resolvido, todo mundo instalado, minha amiga foi alimentar a cadela. Nada dela comer... ___"Mange, Martine, mange toi!" O bicho nada de querer comer. Decerto estava enjoada da viagem... coitadinha...

Fui eu então fazer a minha refeição em cima da cama mesmo. Mal abri meu tupperware com arroz integral, senti um golpe, era Martine que me deu uma focinhada na mão, e lá se foi meu jantar pelo chão. Martine que nem doida mandando prá dentro o arroz que eu havia com tanto carinho preparado prá viagem! 

__"Ah, gritou a dona, ela adora arroz integral, que bom que você trouxe!".

Bom, a história está ficando muito comprida, se der eu conto mais outro dia. O fato é que consegui me sair inteiro dessa aventura, e do outro lado do Canadá, nas Rochosas, me esperavam os famosos ursos que eu tanto queria conhecer... Continua na próxima semana...

Comments

1 year ago

Inspetor Francisco, parabéns. O sr. é um caronista muito do comportado.

1 year ago

soy fan de esta historia. Me hace reir tanto... Es una terapia. Merece una pieza de teatro. Como usted se fue a meter en tal aventura?

1 year ago

Chico, de tudas as suas historias esta e una da minha favorita : )// escreva esta historia en ingles... =)...please..

1 year ago

Chico

e o resto? Martine aprontou mais? :-)

1 year ago

Poxa... Continua... Quero saber mais detalhes...rsrsrsr