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Story

Outro dia fui ajudar meu pai a tomar banho - preparar a toalha, o pijama e a calça plástica. O filho cuidando do pai. Agora sou eu quem diz o que ele deve fazer, papéis invertidos... O pai que ele foi pra mim, murchou e virou uma criança carente. Teria essa criança vivido sempre dentro dele? Agora que o corpo não suporta mais a armadura da máscara, a criança não tem outro jeito - pede ajuda... 

Ele tem alzheimer, pelo menos é esse o diagnóstico dos médicos. Seu estado é variável, mas quase sempre está lúcido. Tem dificuldade de se expressar, quer se expressar mas não se lembra das palavras. É como se ele pudesse ver que está se deteriorando, um observador de si mesmo sem ter muito o que fazer. Não sei bem o que o prende a essa vida. Desconfio que ele ainda quer saber se o plano que traçou pros filhos vai dar certo. 

Ele se enxuga sempre sozinho, mas hoje me pede ajuda para secar os vãos entre os dedos dos pés. Diz que o professor Alberto Holtz, quando ele tinha 7 anos, aconselhou a enxugar os vãos dos dedos dos pés, para prevenir frieiras, com as próprias meias, antes de calça-las. Ele faz isso há praticamente 80 anos. Eu nunca enxuguei os vãos dos dedos dos pés. Nunca tive frieiras.

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Minha mãe gosta de se sentar à mesa com o rádio ligado. Nos programas esportivos, de preferencia. Quando me sento com ela, vou logo pedindo pra abaixar o volume. Meu pai agradece. Eu me pergunto porque ele não faz valer a vontade dele. Quando eu era criança era proibido ver TV ou rádio à mesa. Isso faz uns 45 anos. 

Às vezes tomo café da manhã com eles. Meu pai esquenta uma caneca de leite por 80 segundos, nem mais nem menos. Mistura Nescafé e um pouco de açucar branco. Come do pão mais velho, mesmo que tenha um novo fresquinho, recém comprado. Minha mãe toma café com leite e sempre escolhe o pão mais fresquinho, recém comprado. Ela retira o miolo do pão e joga fora, diz que engorda. Eu sempre como o miolo. Nunca tive problema com meu peso.

Os dois, há décadas, besuntam o pão com margarina Becel, essa que anuncia benefícios para a saúde de quem a consome. Os dois tem problemas de pressão e controlam o peso. Eu só uso manteiga de verdade. Não tenho problema de pressão nem de peso.
 
Anos atrás, meus pais quiserem me presentear com um plano de saúde, alegando que eu precisava me cuidar, pensar no futuro. Eu recusei, disse a eles que tinha outros planos para minha saúde.

Comments

2 years ago

Minha mãe passou or isso com meus avós.Ajudei sempre enquanto solteira.Mas, o mais chocante, o que mais me faz refletir quando estou à beira das minhas vaidades, é lembrar de minha avó(uma mulher cheia de planos e energia),terminar numa mesa fria,com o corpo todo vazando...

2 years ago

Também acho difícil cuidar e acolher quando não se teve essa experiência. Retribuir o que não foi recebido? Mas felizmente a gente aprende muitas coisas na vida através de nós mesmos, não através dos pais, ou através de outros. Ver os pais sem os olhos do filho que somos (e fomos) é realmente um grande desafio , mas reconhecer os próprios limites faz parte de ser humano.

2 years ago

Existem certas coisas na vida para as quais basta o testemunho de Deus e mais nada. Aquele homem poderoso, implacável, insensível, injusto que fez da sua infância algo que, ao invés de ser alegre, foi triste. Aquela figura cuja sombra, ao ver passar, vc tremia de medo. Aquele senhor cuja violência inexplicável deixava marcas indeléveis no seu corpo e na sua alma através de enormes, inexplicadas mas já esperadas surras. Sim, o terrível mentor de todos os seus medos, temores, do seu pavor de voltar para casa depois da aula. Ou de acordar de manhã. Pois é. Muito difícil de entender o que aconteceu depois de todos esses anos. Você olha e vê uma pessoa frágil. Quase um bebê. As mãos tremem, as pernas são fracas, a vista já não ajuda muito, os ouvidos decaíram, ouve bem menos. Absolutamente indefeso. Absolutamente carente. Absolutamente frágil. Nem de longe é mais o terrível, o pavoroso. Esquece o que faz com muita facilidade, a memória está no 'uma bate a outra falha'. E você se pergunta se valeu a pena tanto ódio, tanta amargura, tanto choro e tanto desespero. Você, ao sabor da sua inocência e ele, totalmente desprovido de misericórdia, com aquele ódio surdo e denso. Agora, a realidade nua e crua. O tempo destruiu a sua arrogância, a sua prepotência. ele é hoje, apenas mais um idoso que requer o mesmo cuidado e a mesma atenção que um idoso requer. Em breve, ele pode vir para o seu abrigo. É a grande oportunidade de você demonstrar a ele, como se faz. Como se lida com seres carentes e indefesos. Não que você agora deva amá-lo, que isto é impossível. Mas que atendaa todas as suas necessidades, a todas as suas carências e o deixe ficar em paz, em sua senilidade, em sua velhice, só para demonstrar sobejamente que a compaixão era possível, num passado que não volta mais, o que talvez possa mexer com esse empedernido músculo que ainda teima em fazê-lo ficar em pé, numa última lição de sua vida, de que de nada vale o ódio mesmo que não correspondido, posto que se valesse, ele estaria nesse momento bem longe de você.

2 years ago

Sim, é maravilhoso Simone, é um presente que me foi dado, uma chance de vivenciar a paternidade.

2 years ago

Sinceramente penso que é maravilhoso vc poder fazer isso tudo por eles, é um ciclo que se completa.