Estava sentado ali, apenas sentado ali. Poderia estar recordando mil coisas, planejando mil coisas, mas estava apenas sentado ali. Então alguma coisa começou a acontecer, algo se mexendo dentro dele, pulsando, palpitando. Tentou lembrar se havia tomado o remédio para a pressão, pela manhã. Sim, havia feito isso. A pulsação, a palpitação, aquilo mexendo dentro dele, não tinha, portanto, nada a ver com o início de uma crise hipertensiva. Isso o tranqüilizou um pouco, mas aquela coisa dentro dele continuava a se mexer. Às vezes parecia querer saltar para fora, por dentro de sua garganta, mas, como sua boca estava fechada, a “coisa” batia contra algo que parecia ser seu esôfago e voltava para o seu peito, pouco antes de mergulhar em algum tipo de material líquido e pegajoso, que ele imaginava ser o seu estômago, bem próximo ao seu intestino. Ele, porém, continuava ali, sentado, como se a feroz batalha que se travava dentro de sua pele simplesmente não estivesse acontecendo.
Afinal, o que o havia impedido de comprar flores, um pouco antes, no meio da tarde? Passou por três floriculturas, imaginou diversos tipos de flores sobre o móvel da sala de casa, depois pensou na hipótese de, em vez de flores, comprar uma planta. Imaginou diversos tipos de plantas em cima de diversos móveis da sala, mas acabou desistindo de comprar seja lá o que fosse. Agora, sentado ali, sentia-se um pouco frustrado por não ter comprado nem flores, nem plantas, nem o binóculo…ah, sim, o binóculo. Ele também havia pensado em comprar um binóculo que estava exposto numa banca de jornal. Chegou a pedir à vendedora para examiná-lo. Era um binóculo grande, todo preto. Letras brancas gravadas perto das lentes avisavam que aquilo tinha sido fabricado na Rússia, obviamente depois do desmantelamento da União Soviética. Levou o binóculo aos olhos e teve dificuldade para ajustar o foco.
Finalmente conseguiu focar um carrinho de pastel e vários rostos de pessoas que passavam por seu campo de visão. Tirou o binóculo dos olhos e percebeu que o carrinho de pastel estava bem longe, na outra esquina, o que significava que o binóculo tinha um alcance considerável. Perguntou o preço à vendedora. Achou muito caro. A vendedora disse que podia parcelar, no cartão de crédito. Não, ele não ia comprar o binóculo. Não parecia uma boa idéia comprar um binóculo caro, fabricado na Rússia e vendido numa banca de jornal. Mas agora, sentado ali, continuava pensando em comprar um binóculo, naturalmente não tão caro, de procedência menos exótica e que estivesse à venda em um local menos improvável do que uma banca de jornal…talvez numa ótica ou numa loja de equipamentos fotográficos, por exemplo. Continuava sentado ali. Percebeu, de repente, que aquela coisa, dentro dele, havia-se acalmado, sabe-se lá por que.