“Filha da puta, filha da puta! É foda, é foda! Caralho!” Junto com os gritos do sujeito, uma voz feminina também gritava: ”Pára com isso, por favor, pára com isso!” Levantou do computador e foi até a janela. A confusão era no prédio ao lado. Costumava acontecer com alguma freqüência e era até norma
l, num dia quente como aquele. Aliás, o calor daquele dia estava pior do que o dos dias anteriores. Estava pior. A alta temperatura ganhara um poderoso aliado, o vento noroeste, que soprava loucura por todos os cantos da cidade, incluindo, obviamente, a cabeça das pessoas. Nesses dias, ele já aprendera que precisava ir devagar. Tomar cuidado para não ser levado, ou se melhor, não ser tragado pelas corrente de ar quente que pareciam soprar de e em todas as direções, desde que o dia clareara. Tratou, então, de “neutralizar” a agitação provocada pelo barraco no prédio ao lado. Tomar um banho morno era uma solução simples e prática para tentar recomeçar o dia de forma mais amena. Só que, antes de entrar no chuveiro, seus intestinos enviaram uma mensagem ao seu cérebro.
Sentado na privada, percebeu que alguém, em outro prédio, situado bem ao lado do vitrô do banheiro, testava toques para um celular. A princípio, achou até divertido, lembrando das vezes em que, ao comprar um celular novo, fazia a mesma coisa, buscando o toque que mais o agradasse. Aliás, essa tarefa de escolher toque pra celular estava se tornando a cada dia mais complicada, devido à grande quantidade de toques que os novos celulares colocavam à disposição dos clientes. E a pessoa no prédio ao lado da janela do banheiro parecia estar tremendamente indecisa, percorrendo várias vezes a longa lista de opções de toques disponíveis para aquele aparelho. Fechou o vitrô e enfiou a cabeça debaixo do chuveiro. Enc
errado o (longo) banho, fechou a torneira do chuveiro, pegou a toalha e, depois que se secou, abriu novamente o vitrô do banheiro. Percebeu que seu vizinho, ou sua vizinha, ainda continuava escolhendo que toque colocaria em seu novo celular. - Enfia essa bosta no cú, peida, grava e usa como campanhia, caralho! O pretendido efeito calmante do banho morno tinha escorrido pelo ralo. Por sorte, o vizinho, ou vizinha, não reagiu à sua exótica sugestão de escolha do toque para o novo celular. Aliás, depois dos berros no vitrô do banheiro, parece que todo o prédio ao lado mergulhou num profundo silencio. Tudo bem, teria que recomeçar o dia de novo. Foi o que fez, ao sair de casa, fones de ouvido pendurados nas orelhas, curtindo uma seleção de músicas cuidadosamente escolhidas para enfrentar um dia de noroeste. Tinha realmente acertado na seqüência e no estilo das músicas escolhidas.
O som funcionva como uma espécie de redoma de proteção contra os efeitos letais das rajadas de vento quente que apunhalavam seu corpo a cada passo. Tudo estava correndo bem, mas… - Esta cidade está entupida de carros, carros fedidos que peidam ar quente e deixam o dia mais quente. E ainda por cima são barulhentos, não deixam eu ouvir minhas músicas em paz. É um absurdo, é tudo um absurdo, que merda! Ora, foda-se!
Desligou o tocador de mp3, arrancou os fones de ouvido e disse pra sim mesmo: “Tudo bem, é briga, né? Então, tá!” Ao atravessar a primeira faixa de pedestres que surgiu na sua frente, fez questão de caminhar bem devagar sobre ela, embora um carro se aproximasse em velocidade. É lógico que o carro não reduziu a marcha, mas pelo menos ele obrigou o motorista a desviar um pouco o veículo, para não atropelá-lo. Nenhum motorista respeitava faixa de pedestre naquela cidade. Quando um carro, por acaso, reduzia a velocidade por causa de um pedestre que atravessava na faixa, o motorista com certeza era de fora. Dessa forma, os pedestres costumavam atravessar as faixas correndo, mesmo quando estas ficavam junto aos sinaleiros, nas grandes avenidas. Ou então atravessaram em qualquer lugar, no meio do trânsito correndo solto, já que os riscos eram idênticos.
Na verdade, os riscos não eram idênticos, pois, pelo menos, no meio do trânsito, os pedestres tinham plena consciência de que, se vacilassem, os motoristas jogariam mesmo seus carros em cima deles. Nas faixas ainda podiam ter alguma sorrateira ilusão sobre cidadania e babaquices do tipo. Então ele ficava realmente revoltado com as campanhas que tentavam incentivar os pedestres a atravessar nas faixas. Foi esse tipo de revolta que o fez, desta vez, praticamente parar em cima de uma segunda faixa, obrigando dois carros a tirar finas, cada um de um lado de seu corpo, com um dos motoristas o xingando de “idiota filho da puta”. Cinco ou seis faixas depois, ele percebeu que, nas duas últimas faixas, uma velhinha parecia acompanhá-lo em seu protesto suicida.
Assim que ele começava a atravessar a faixa, a velhinha ia um pouco atrás e, quando ele parava, ela também parava. Isso obrigava os motoristas a desviar de dois “alvos” numa única faixa. Pensou em explicar à velhinha que aquilo era perigoso, porque os motoristas podiam não se desviar a tempo, além de haverem alguns que ficavam tão putos que eram capazes de simplesmente jogar seus carros em cima do “invasor” da faixa. Ele, afinal, estava fazendo aquilo porque tinha razões muito fortes. Estava protestando não apenas contra a falta de respeito dos motoristas, mas também contra uma série de coisas que o tinham incomodado ao longo de toda a sua vida – e, acima de tudo, estavam protestando contra aquele maldito calor e aquele maldito noroeste. Mas, enfim, se a velhinha havia resolvido acompanhá-lo naquele protesto em cima das faixas de pedestres da cidade, ela também devia ter suas razões, e quem era ele para impedi-la? Sendo assim, resolveu continuar com seu “trabalho” como se estivesse sozinho. Já tinha irritado motoristas em mais de 20 faixas quando, ao atravessar mais uma, se deu conta de que os carros estavam se aproximando cada vez em menor velocidade.
Notou então que, além da velhinha, sete ou oito pessoas, entre homens e mulheres de diversas idades, pareciam ter “aderido” ao movimento de protesto, pois atravessavam a faixa a intervalos mínimos de tempo, numa sincronia espontânea que, sem dúvida, devia deixar os motoristas desnorteados, daí a redução de velocidade. A partir dali, passou a sentir-se como líder de uma tropa que conseguiria fazer com que as faixas de pedestres fossem finalmente respeitadas naquela cidade. Depois que esse objetivo fosse alcançado, passariam a lutar então por outras coisas, fazendo daquela cidade um lugar melhor pra se viver. Quem sabe não conseguiriam, de alguma forma, impedir até mesmo que fizesse tanto calor e que o vento noroeste deixasse de soprar sua insanidade. Estava quase flutuando nesse seu delírio quando ouviu um baque surdo às suas costas. Ao voltar-se pra trás, viu as cerca de 30 pessoas que agora o acompanhavam na travessia das faixas ao redor de um corpo estendido nas listas pintadas em cima do asfalto. Ao chegar perto, reconheceu a velhinha. Sua primeira aliada tinha sido atingida em cheio por um carro, que avançara com tudo sobre a faixa, apesar dela estar ocupada, naquele momento, por inúmeros pedestres. Pouco antes de ser colocada numa ambulância, a velhinha, deitada numa maca, piscou o olho e deu um sorriso. Ele resolveu voltar pra casa. O calor continuava insuportável, o vento noroeste continuava soprando loucura por todos os cantos da cidade. Inclusive, obviamente, na cabeça das pessoas.