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A escuridão que nos leva a descobrir nossas asas..

in "Propósito"

Story

O que há de mais leve que uma borboleta. Borboleta é uma pétala que voa.
- Clarice Lispector
 
O ano de 2009 foi, sem dúvida, o mais difícil da minha vida. Talvez tenha sido "culpa" do Ano do Sol. Talvez tenha sido o Retorno de Saturno. Mas talvez a explicação mais verdadeira seja a de que eu me permiti aprender - e isso sempre dói.

Inicialmente, parecia que o Sol - um sol fustigante de meio-dia - estava me mostrando toda a sujeira das pessoas ao meu redor. A sensação era de decepção, de ter sido enganada, traída pelas pessoas em que eu mais confiava. E essa é, sem dúvida, uma forma possível de ver as coisas.

Mas, enquanto eu estava presa a esse ponto de vista, tudo o que eu conseguia alimentar era mágoa, rancor, e consequentemente, dor.

Mas foi essa dor que me empurrou às profundezas de mim mesma - e foi aí que de fato se iniciou o processo de aprendizado. Não foi fácil - não está sendo fácil. Há momentos em que eu quero me convencer de que as transformações terminaram - de que eu posso me dar um descanso - apenas para cair em mais uma profundeza de mim mesma que eu ainda desconhecia.

E foi só quando aceitei que esse seria o caminho, foi só aí que a imagem de uma enorme borboleta azul se apoderou da minha consciência. Eu sabia que eu não era ainda aquela borboleta. Sabia que eu mal sabia o que fazer quando saísse da crisálida e esticasse as asas.

Mas sentia, pela primeira vez em muito tempo, que havia algo para além da dor e do sofrimento, algo a que eu podia aspirar, um propósito a me esperar do lado de lá da escuridão.

E todas as vezes em que eu pensava no que havia depois de toda a atribulação por que eu passava, vinha-me à mente a imagem da borboleta azul. Eu me sentia mesmo recolhida, dando a mim mesma o tempo de me curar e me transformar. E pressentia que em algum momento estaria vendo, sob um sol clemente, que acaricia em vez de queimar, minhas lindas asas azuis.

E me aproximava, enquanto isso, de encontrar esse caminho de bem-aventurança, guiada por um propósito que agora eu começava a vislumbrar, já sob alguns raios de sol matinal. E foi guiada por essa visão que encontrei, na vida real, a borboleta que me guiaria no aprendizado de ser borboleta.

Quando era criança, durante uma caminhada, uma borboleta pousou no dedo de Julia, e lá permaneceu, fazendo-lhe companhia por vários minutos. Foi nesse momento que a borboleta, que mais tarde faria parte do seu nome, apresentou-se a Julia Hill. Ela aprenderia muito com a borboleta, principalmente nos momentos mais difíceis, como quando ela escalou uma sequoia de cerca de 1000 anos, e viveu em uma pequena plataforma na árvore por mais de dois anos para impedir que fosse derrubada por uma madeireira. 

Foi com surpresa e maravilhamento que li uma entrevista em que Julia Butterfly Hill falava sobre a borboleta: "A borboleta é um símbolo poderoso de transformação muito intensa
. A verdadeira transformação só pode acontecer quando se liquefaz totalmente quem se é e o que se sente, a sua ideia sobre o mundo. As dificuldades pela qual passei serviram como um portal para a transformação, como uma lagarta que se transforma em borboleta".

Era exatamente isso que eu vinha vivendo! E agora, nos estágios finais de um processo de transformação (que nunca é definitiva - já que vivemos em constante transformação), eu conseguia finalmente começar a perceber qual era o meu propósito, qual a minha bem-aventurança, qual a minha "sequoia". 

Minhas asas podem ainda estar amassadas, mas eu definitivamente já vejo, sob um sol acalentador, as flores em que me alimentarei para seguir meu vôo. 

Comments

6 months ago

1 year ago

Tenho que concordar com essa frase... pois é real.
"A escuridão que nos leva a descobrir nossas asas.."
Atitudes são tomadas quando obrigatoriamente devem ser tomadas, quando não existe outra saída, não tem como fugir.