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O mito de que o conflito é ruim está ruindo. O

conflito começa a ser visto como uma manifestação mais

natural e, por conseguinte, necessária às relações entre pessoas,

grupos sociais, organismos políticos e Estados. O

conflito é inevitável e não se devem suprimir seus motivos,

até porque ele possui inúmeras vantagens dificilmente percebidas

por aqueles que vêem nele algo a ser evitado:

. Ajuda a regular as relações sociais;

. ensina a ver o mundo pela perspectiva do outro;

. permite o reconhecimento das diferenças, que não são

ameaça, mas resultado natural de uma situação em que

há recursos escassos;

. ajuda a definir as identidades das partes que defendem

suas posições;

. permite perceber que o outro possui uma percepção diferente;

. racionaliza as estratégias de competência e de cooperação;

. ensina que a controvérsia é uma oportunidade de crescimento

e de amadurecimento social.

Outro mito importante construído em torno do conflito,

e que está também sendo superado, é aquele que diz

que o mesmo atenta contra a ordem. Na verdade, o conflito

é a manifestação da ordem em que ele próprio se produz

e da qual se derivam suas conseqüências principais. O

conflito é a manifestação da ordem democrática, que o

garante e o sustenta.

A ordem e o conflito são resultado da interação entre os

seres humanos. A ordem, em toda sociedade humana, não

é outra coisa senão uma normatização do conflito. Tomemos

como exemplo o conflito político: apesar de parecer

ruptura da ordem anterior, há continuidade e regularidade

em alguns aspectos tidos como indispensável pela sociedade,

que exige a ordem e de onde emanam os conflitos.

Somente estudo e compreensão das relações que existem

dentro da ordem podem permitir o entendimento completo

dos conflitos que nela se originam e que, por fim,

são a razão de sua existência. Por exemplo, os sócios que

brigam. É necessário ver as condições em que se fez a

sociedade e as expectativas dos sócios. Possivelmente, cada

um deles terá entendimento pessoal das regras que iniciaram

a sociedade e possuíam, por derivação, expectativas

diferentes. Instala-se o conflito!

O conflito está regulado de tal modo que nem sempre

nos damos conta sequer de sua existência. Como exemplo

disso, temos o futebol ou o desfile das escolas de samba:

eles excluem a violência como a entendemos comumente

e prevêem um modelo de comportamento cooperativo, mas

os interesses são frontalmente conflitantes!

Acontece, muitas vezes, que o conflito é deflagrado e

não sabemos exatamente o que o provoca, pois a posi-

ção conflitante é diferente do interesse real das partes. O

interesse é a motivação objetiva/subjetiva de uma conduta,

a partir da qual esta se estrutura e se distingue da

posição, que é a forma exterior do conflito, que pode esconder

o real interesse envolvido. Os comerciantes têm

interesses conflitantes: o vendedor quer vender mais caro,

enquanto o comprador quer pagar menos [...], mas os

interesses são claros e definidos. Diferentemente com o

que ocorre no conflito causado pela separação de casais

que brigam pela posse da casa onde moravam, mesmo

possuindo outras imóveis de igual valor. Na verdade, a

posição de posse da casa esconde um interesse implícito:

quem ficar com a casa do casal tem a sensação de

vitória sobre o outro.

 


 

 


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