Acordei atrasada. Parece que o meu despertador me ouviu dizer, ontem, que eu queria mais um dia de fim de semana, e resolveu fazer a minha vontade. Atordoada ainda, fui fazendo mentalmente a lista das coisas que eu tinha que fazer antes de sair: arrumar a mochila da minha filha, escolher uma roupa para ir trabalhar (quando é que eu vou conseguir trabalhar no meu home office?), tomar café, levar alguma coisa para comer durante o expediente, escolher um livro para ler na condução... E isso tudo nos 40 minutos que separam a minha saída da cama e a minha saída de casa.
No trajeto, refiz mentalmente não-sei-quantas-vezes a minha lista de afazeres do dia e da semana. Pensando bem, meu tempo no escritório até parece descanso.
Dia de rodízio do carro é sempre um inferno. Todos os minutos minimamente cronometrados. Saí do escritório mais tarde do que eu pretendia. Chego em casa, a faxineira me pega para conversar para justificar seu pedido de aumento. Tudo acertado, refaço na cabeça o trajeto: pegar o meu remédio para gastrite (estresse? imagine!), levar as amostras do exame da minha filha ao laboratório (o prazo já no limite!), pegá-la na escola às 16h30, e chegar em casa antes do rodízio. Antes de sair, uma olhadela no relógio: 16h! Ha-ha-ha! Corro de um lado pro outro, o laboratório demora um pouco, chego na escola já depois das 17h, para ouvir que eu demorei e minha filha ficou sentada num canto, sem janta.
Com um aperto no peito e uma vontade de chorar de cansaço e hormônios, fico pensando nessa história de Dia Internacional da Mulher, igualdade, etc. Não é verdade que a sociedade diminuiu durante séculos o papel da mulher, porque o papel da mulher sempre foi e sempre será o de realizar os “serviços de base”, aqueles que garantem o sucesso e a sobrevivência da nossa espécie. A sociedade podia reverberar que fomos feitas de um pedaço de costela, que somos culpadas pela expulsão do paraíso, que somos as portas para o inferno - podiam até dizer que não tínhamos alma. Mas continuamos cuidando do lar que acolhe homens e mulheres, do alimento que nos sustenta, do prazer que nos reenergiza, e da continuação da espécie, cuidando das nossas crianças, dos idosos, da comunidade.
Tentando provar que somos melhores do que os homens, não conseguimos mais cuidar das atribuições femininas que, no entanto, continuam gravadas nos nossos corpos e nas nossas almas. Embora ainda tenhamos salários menores do que os dos homens desempenhando as mesmas funções, provamos que somos capazes de fazê-lo tão bem quanto os homens - e muitas vezes melhor do que eles. Mas para fazê-lo, tivemos que eleger prioridades, e muitas vezes desistir da família em nome do “sucesso profissional”.
Como somos realmente muito capazes, de um jeito ou de outro, muitas de nós conseguem trabalhar fora, ter marido, filhos e bichos de estimação - e até hobbies! Mas muitas vezes não conseguimos dar o nosso melhor em uma ou outra esfera - frequentemente sentimos que não estamos sendo boas o suficiente em nenhuma delas - e nos sentimos sobrecarregadas, incapazes, culpadas.
Eu gosto do meu trabalho, e gosto de tudo que desenvolvo fora dele, em espiritualidade e literatura. Mas hoje, eu não queria estar escrevendo este texto. Preferia estar dando atenção para a minha filha, que está se distraindo com a TV enquanto a mãe fica mais uma vez olhando para aquela telinha luminosa. Mas hoje, mais do que nunca, eu precisava escrever, para tirar das costas e da garganta um pouco do peso de ser mulher hoje.
Nenhum homem jamais vai entender o que é ser mulher - é o mistério feminino. O mais surpreendente é que, nessa busca por “igualdade” com os homens, muitas mulheres já não entendem o que é ser mulher. Já perdi as contas de quantas já me disseram que acham que TPM é “desculpa”. Não sou contrária às conquistas da medicina de modo geral, mas injeções cavalares de hormônio para inibir a menstruação não fazem mal apenas ao organismo feminino - fazem mal à alma, nos desligam de quem somos em nossa essência.
Eu sou feliz por sentir a euforia e a onda de criatividade de quando estou ovulando. Gosto de ter uma “desculpa” para me mimar com chocolate e massas na TPM, e chego a curtir aquele apertozinho no útero que sinto no começo da menstruação - de verdade!
Ser mulher, como ser, é cheio de dor e prazer. Mas viver é cumprir o nosso potencial, e eu acredito que, por mais que tenhamos criado o nosso espaço no “mercado” de trabalho, somos muito mais do que isso. Temos direito de poder, se quisermos, ser mulheres, mães, donas-de-casa - integralmente, colocando nisso nosso corpo e nossa alma.
Algum dia, quem sabe, quando homens e mulheres tiverem conseguido alcançar a consciência da nossa natureza, e estivermos em plena conexão com ela, talvez possamos simplificar nossas vidas, e voltar aos nossos papéis originais, com a tranquilidade de não ter mais nada a provar, de não precisar competir - que isso fique restrito ao lazer!
Quando esses papéis não forem mais impostos, e sim reflexos de nossa alma, de nossa essência - nesse dia poderemos então finalmente viver, simplesmente.
1 year ago
Nossa, que profundo esse texto... por um instante me vi dentro dele.
Somos exigidas e exigimos muito de nós mesmas e não conseguir cumprir todos os nossos papéis ao pé da letra nos deixa um tanto inconformadas.
Penso que só pelo fato de ser mulher, quando passar desta para a outra vida, já teremos pago a maior parte de nossos pecados.
1 year ago
Carina, fiquei emocionado com a sua maneira direta e singela de nos recordar do óbvio. Quero mais!!!