Na madrugada de sábado passado perdi um grande amigo. Digo perdi só pra colocar as coisas no padrão convencional, porque não acredito mesmo nisso. Não acho que perdi. Gente não é da gente. Ninguém é de ninguém, logo não dá pra perder. Ninguém perde o que nunca teve. Em todo caso, eu não o vejo mais com os olhos físicos, nem posso mais tocá-lo com as mãos ou falar com ele como falo com vocês - alguns de vocês, pelo menos. Acho que isso ainda vai doer um tempo. Chama-se luto e dói mais quando o amigo é o pai da gente. Ele era (?) meu pai.
Nem nos víamos com tanta frequência. Eu viajo muito. Mas a qualidade da presença sempre superou a falta de quantidade. Uma vez li num cartão da
Imaginarium que pra estar junto não é preciso estar perto. Só é preciso estar dentro. Ele está dentro. Essa é outra razão porque sei que não perdi.
Cada vez que faço algo que aprendi com ele, ele está junto comigo. E eu aprendi muita coisa com ele. Aprendi a gostar de música -- de Nelson Gonçalvez a Beatles -- e isso me ensinou ecletismo, flexibilidade, respeito pela diversidade, adaptabilidade a diferentes estilos e a enxergar a beleza neles. Meu primeiro compacto foi ele quem deu. Era "
Me and you" do
Dave McLean ... Give me only a smile... Me dê só um sorriso... e do lado B era
We Say Goodbye... Why did you say goodbye to me? Por que você disse adeus pra mim?... Alguém lembra? É só comigo ou está mesmo havendo uma onda de saudosismo e de reencontros "pela aí"?
Ele também me ensinou a falar espanhol e inglês. Ele usava neuroaprendizagem, sabiam? Nos anos 60! Colocava os discos do Miguel Aceves Mejia -- eu me emocionava sempre com La Calandria - e me ensinava a cantar em espanhol e entender o que era dito. Fazia o mesmo com o inglês tocando Beatles, Neil Diamond, Bee Gees... Saber com sabor. Isso foi, tenho certeza, meu primeiro embrião do que eu faria anos mais tarde casando a ciência com a arte. Eu realmente acredito que a sabedoria só voltará quando, de novo, como na antiguidade, Ciência e Arte forem amigas, senão amantes.
Aprendi com ele a gostar de eletrônicos. A operá-los com facilidade. Nossa, como isso me ajudou a entrar na era da cibernética. A internet entrou no Brasil em 96/97. Em outubro de 97 eu já tinha e-mail e já tinha colocado meu primeiro site no ar -- totalmente criado por mim! Ambos gostamos de gadgets -- essa bugigangas eletrônicas super divertidas. É, definitivamente, meu pai me colocou no século XXI muito, muito antes dele chegar.
Ele me ensinou a fazer trocadilhos. Era espirituoso e ágil, com um senso de humor desses que não tem como a gente não rir. Sabia ser encantador quando queria.
Mas a coisa mais importante que aprendi com meu pai foi a viver e deixar viver. Ele jamais se metia na vida de ninguém. Deve ser por isso que troquei a Psicologia Clínica pela Organizacional (rs). Ainda me lembro dele dizendo pra minha mãe "Deixa a menina quieta" quando, aos 18 anos, tomei uma decisão importante da qual ela discordava.
Ele era ranzinza... exceto quando não era.
Ele era calado... exceto quando não era.
Ele era mal-humorado... exceto quando não era.
Será que a gente ama as pessoas pelo que elas são, pelo excetos, por ambas as coisas ou porque, no fundo, sabemos que ninguém "é" coisa nenhuma. Apenas "está" deste ou daquele modo?
Não importa. Eu amo meu pai. Eu te amo porque te amo. Vocês conhecem "As sem-razões do amor" do Carlos Drummond de Andrade?
AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Carlos Drummond de Andrade
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
-
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
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Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
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Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
É... eu amo meu pai. Vou sentir falta dele na forma convencional e "papear" muito com ele na forma ascencionada -- um privilégio, eu acredito. De quando em quando, vou me lembrar de alguma coisa que vai me emocionar. Talvez eu chore. Como agora. Tá bom também. Faz parte.
Aos que vão estar trabalhando comigo nos próximos meses só peço, seguindo o conselho do amigo Luiz Carlos (o mesmo da crônica passada; do livro "Por que fazer terapia?") que me permitam parecer distante de vez em quando. Isso vai acontecer muito por um tempo. E sorrir um pouco menos também. Paz-ciência.
Pro meu pai, fica aqui a belíssima música "
Por brilho" do Oswaldo Montenegro, outro amigo de quem gosto e respeito muito, destacando o verso:
"Onde vá,
Vá para ser estrela.
As coisas se transformam
E isso não é bom nem mal.
e onde quer que eu esteja,
O nosso amor tem brilho,
vou ver o teu sinal"
Até breve, amigo.
São Paulo, 10 de agosto de 2009
Inês Cozzo Olivares (a filha)