Story

Mais um dia em que meus olhos só querem se encher do belo; meu corpo só quer sentir; minha alma anseia por intensidade.
Nesses dias, penso em pele acetinada, perfume de baunilha e pimenta e sabor de gengibre.
A respiração ofegante me sufoca em um instante interminável de inspiração suspensa.
Meu corpo e minha alma se preparam para uma explosão - "explosão do quê?" Pergunto, sabendo ser inútil esperar uma resposta mental a uma sensação tão óbvia e irracional.
Os lábios vermelhos, a lua de fogo, uma cauda que balança à espera. Veludo. E a pele cheirando a baunilha. É tudo meu, mas tão desconhecido e insaciável.
Preciso criar, mas a linguagem me falta. Preciso ver sangue, e sem perceber (impossível pensar!), mordo o lábio, repetidas vezes, ofegante.
Estarei gestando a inspiração? Terei concebido, sem perceber, numa respiração profunda?
Não é desejável desacelerar: tudo tem seu tempo (e tudo bem!). A hora é de combustão, e dou as boas vindas a cada sopro que faz as chamas crepitarem, cheias de si.
Nessas horas, tenho ânsia de sentir o sol que arde na pele; as gotas raras de chuva que caem nos trechos de pele nua são sensuais.
Paro para sentir somente: o ondular ofegante do peito deseja ser compartilhado. Tudo acontece na superfície e nas mais profundas camadas do ser. É profundamente material e incomparavelmente etéreo.
Pergunto-me se todo esse movimento de camadas profundas é visível a olho nu, e torço secretamente para que seja, porque as palavras não dão conta do desespero prazeroso de ser uma força criativa desenfreada - ainda que apenas por algumas horas.
O corpo apaga sem esforço toda tentativa de racionalização.
Os lábios vermelhos, a dor e o prazer, a brisa e a tempestade são criaturas desse reino interno que deseja se expandir e se manifestar no mundo em beleza e intensidade.
E não tem fim, mesmo quando acaba: as garras cravadas na alma e no coração e na carne do mundo.
É a matéria desejando o seu igual com profunda intensidade. A noite eufórica nas veias mesmo sob a luz do sol. Desejo - vida.
Não domesticar o desejo. Não apressar o tempo da gestação. Deixar-se levar nas ondas da criação, o ritmo que é o que há de mais meu com a natureza.
Mordo a língua para sentir: meu corpo quer alimentar a necessidade de recriar, reciclar.
Cheiro de mar, sal e vento que arde nos olhos. Finalmente entendo que é preciso somente ir com a maré das águas, do sangue, dos perfumes: a lua crescente!
Inspiro de corpo e alma, pronta para ser levada num pulsar doce e intenso de matéria.
Deixo-me inundar por essa força e, pés descalços, reconheço a minha essência... E, aqui e agora, sou.

Comments

1 year ago

Caramba! Escreve mais, Carina.

1 year ago

Apaixonante. Passa uma imagem de força feminina como poucos textos. Parabéns

1 year ago

::))

1 year ago

Obrigada, Munik! Acho que é uma coisa de que temos que nos lembrar todos os dias, para aprender a respeitar os ciclos...

1 year ago

Desejo - vida.
Não domesticar o desejo. Não apressar o tempo da gestação. Deixar-se levar nas ondas da criação, o ritmo que é o que há de mais meu com a natureza

AMEI