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Story

Pela terceira vez eu iria vivenciar uma experiência xamã. Desta vez, com um diferencial: o ritual seria em um sítio com direito ao contato com a natureza, com a terra, com o verde, com os pequenos habitantes da mata.

Éramos um grupo de quinze pessoas incluindo o xamã Junior Patta e sua companheira Mariana. Um casal lindo. Em plena sintonia na condução de nos levar ao encontro de nós mesmos.

No final da tarde do sábado saímos em pequeno comboio rumo ao sítio em Ibiúna. Eu procurava me manter tranqüila, embora um leve temor me invadisse de tempos em tempos. Na verdade eu não queria passar mal... Muitas vezes o chá da Ayahuasca nos faz por literalmente para fora tudo que não presta mais. Tudo que de certa forma nos envenena. E era disso que eu queria fugir.

O sítio não era mais usado pelos seus proprietários. Assim, ele estava em estado de abandono, com o mato alto impedindo – mesmo à luz do dia - ver a real beleza que o lugar escondia.

Os homens logo começaram a limpar uma área entre copas de árvores onde o terreno era plano, com chão de terra batida. A eles cabia limpar o terreno, providenciar bastante madeira para a fogueira, arrumar a mesa para o altar.

Perto deste lugar, um galpão coberto, onde a família outrora se reunia em volta do forno a lenha para preparo de pizza. Um pranchão fazia a vez de uma comprida mesa.

Este galpão seria a nossa “base”. As mulheres rapidamente arrumaram os “comes e bebes” que cada um levou.

O clima era de expectativa. O grupo já se conhecia. Já tínhamos passado juntos por essa experiência. O tagarelar constante do grupo feminino não escondia a apreensão de todos nós.

Com tudo arrumado, resolvemos lanchar. Come-se pouco para não pesar no estômago, mas o suficiente para enfrentarmos uma noite inteira sem alimento. A noite já trazia os insetos. Uma variedade de aranhas, pernilongos. Enfim, essas coisas de mato. As mulheres gritavam, riam a cada aparição de um inseto novo. A conversa animada. Todos unidos em um mesmo propósito.

Por volta das 20hs chegou o Xamã. Ele é uma pessoa adorável. Um homem lindo por dentro e por fora. Eu digo a ele que ele é um Anjo encarnado. Perdi-me no seu abraço. Senti-me segura e pronta.

Júnior montou com carinho o altar com todas as ferramentas de que ele precisava. Velas em circulo em volta do local onde ficaríamos. Velas no altar. Tambor, chocalho, colares, cachimbo, penas de coruja. O casal foi se vestir a caráter. Ela com um lindo cocar indígena branco em sua cabeça. Ele com a cara pintada.

Nós por sua vez, com os colchonetes colocados dentro do círculo no lugar que cada um achou por bem se instalar.

Nossa noite iria finalmente começar. Elevei meu pensamento aos céus e orei em silêncio olhando para o alto divisando as copas das árvores se encontrarem com o céu escuro.

Junior, então, deu início à cerimônia. Saldou-nos, saldou a mata e explicou que iríamos trabalhar com os quatro elementos: fogo, terra, água e o ar. Explicou qual o objetivo do trabalho. Ele pediu que na primeira parte do ritual permanecêssemos em pé e que por mais que o corpo pedisse que deitássemos, não o deveríamos fazer. Era importante naquele processo a nossa sustentação. O nosso domínio sobre nós mesmos.

Um a um, ele foi consagrando e ofertando o cálice de chá. Meu coração alterou seu batimento. Eu respirava fundo e lentamente. Eu tinha de me controlar e não deixar o medo me dominar.

Ingeri o líquido espesso e de gosto horroroso. A sorte estava lançada. Não haveria mais volta.

A fogueira ardia com as labaredas formando um balé ao som do chocalho e do tambor. Eu não conseguia deixar de olhar o fogo. Lindo, vibrante, sendo alimentado por aquele que foi designado a ser o Guardião do Fogo. Neste dia, meu ex-marido. Ele trás em sua linhagem este Guardião.

Tínhamos nos instalado por vontade dele, bem em frente a um lindo e frondoso coqueiro. E foi que em um ato instintivo eu fui por trás do meu colchonete e me apoiei no coqueiro. Eu tinha de ter minhas mãos postas em seu tronco.

Lentamente meus órgãos já tinham um peso diferente. Minha cabeça já apresentava um leve torpor. Minha visão começava a se alterar.

Agarrei-me ao coqueiro e pensei. Aí está! Lá vou eu Senhor! Guie e proteja-me! Seja feita a sua vontade e não a minha!

Eu olhava para frente, na direção noroeste onde estava o altar. Olhava a fogueira e o fogo era mais intenso. Olhava o Xamã e ele era mais forte. Virei o rosto para trás como sendo chamada a olhar o sul.
Lá estava. Uma das visões mais lindas que meus olhos puderam ver. As árvores antes com seus caules magrinhos e de vegetação irregular, agora se transformaram em energia pura. Caules luzentes com densa vegetação, como se de repente aquela mata “pobre” na visão diurna tivesse tomado a dimensão de uma Mata Atlântica...

Olhei o céu e pude ver pequenas bolas do tamanho de bolinhas de tênis, azuis brilhantes eram as estrelas. Eu agarrada a árvore comecei a sorrir. Um nó na garganta. Eu senti todo o meu ser pulsar no ritmo daquele verde em três dimensões. Não conseguia mais me virar para o norte.

Fixei novamente meu olhar e uma porta se abriu formada por duas árvores. Lá no fundo uma escuridão muito profunda. O escuro era denso, como se eu pudesse pegá-lo com a mão. Ainda abraçada ao coqueiro eu estiquei meu braço esquerdo. Eu queria tocar naquela escuridão. Eu estava sendo convidada a entrar na escuridão. Mas eu olhava o limite da vela que demarcava o final do círculo sagrado em que estávamos inseridos. A porta ficava além dele. Eu sabia que não poderia cruzar a linha. Não sozinha; não naquele momento.

Então, como que saindo da escuridão, meio com metade do corpo escondido. Espiando, olhando para mim uma sombra. Via seus olhos postos em mim.

Ele tinha um ar irônico:
- Você vem ou não? Vai atravessar os limites ou não?
Eu ria para ele. Eu não tinha medo. Chamei meu caboclo de trabalho.
- Não eu não vou. Não hoje, não agora.

Eu sabia que lá estava o meu porão inatingível. Eu sabia que se entrasse lá eu saberia tudo que sempre quis saber. Mas talvez, e só talvez, eu não saísse mais de lá. Por mais que eu quisesse entrar, por mais que eu quisesse romper com todas as amarras, eu não deveria. Não poderia. Não naquele momento.

Senti-me soltar do coqueiro. Virei-me totalmente de frente para o sul e rapidamente comecei a trabalhar com a energia. Movimentos circulares, rápidos, respiração acelerada e profunda como se eu precisasse consumir todo o “prana” da região. Senti meu corpo crescer, meu peito estufar. Já não era mais só eu. Era eu e o meu guia chefe. Reconheci meu caboclo chefe da minha linhagem.
Nós dois a mata e o céu por testemunha. Não sei quantos minutos trabalhamos.

Caí de quatro no solo. Mãos postadas na terra. Tudo sendo consumido pela terra. Ainda agachada me virei para o norte, para a fogueira.

Já não era mais o caboclo e eu. Era quem e eu? Seria a serpente. A minha serpente. Girava o corpo, olhava com olhar baixo. Olhava espreitando, mas sem querer dar o bote.

Ouvia sons que vinham da mata. Sentia o calor do fogo. Via todos à minha volta, entregues cada um ao seu trabalho. Via meu ex-marido alimentar o fogo com maestria. Não me via.

Voltei correndo para o coqueiro. Abracei-o profundamente, intensamente até ser ele. Agora era eu e o coqueiro. Chorei. Choro de alegria. Choro de êxtase. Choro de “obrigada Senhor!”... eu sou um convosco!

Um outro amigo veio até mim.
- Ely, se solta. Dê-me a mão. Vem comigo. Você pode ficar em pé sem a árvore. Não questionei. Olhei em seus olhos. Era ele e o índio dele? Era ele e o seu Guardião? Não importa. Estava segura naquela mão.

Ele me conduziu em volta da fogueira até o altar.
- Tire essas botas. Pise na terra.

Eu calçava botas. Não vou para uma mata sem botas. Eu obedeci. Não me importava se bichos iriam me picar. Eu tirei meu pisante. Pés na terra. Apertei a mão dele com muita força.

- Agora você pode andar sozinha. Ande. De a volta na fogueira. Vá!
Ele me soltou. Eu fincada no solo. Agora era eu e o solo. Uma onda de energia subiu pelos meus pés. Minhas pernas se fortaleceram. Eu comecei a andar em volta da fogueira.

Agora era eu, o solo, a fogueira, a densidade daquele verde, o som o tambor, o som do chocalho.

Eu estava livre. Liberta. Leve. Segura. Firme. Não parava de dar voltas na fogueira. Às vezes parava de frente para o sul. Um rosto no topo de outra árvore. Saldei, cumprimentei.

- Viu. É só você. O tempo todo é só você. O rosto me dizia.
Eu ria. Continuava a andar em círculos em volta do fogo. Mãos na cintura. Sorriso no rosto. Alegria no coração. Agora era eu e minha guardiã. Ela adora por as mãos na cintura... Ela ria, eu ria. Estávamos lá. Nós duas atravessando o tempo, sem tempo, o espaço que não cabe espaço. O eterno.

Nova parada olhando o sul. A porta já não estava mais lá. A sombra havia partido. O rosto da árvore me disse:
- Quem sabe um dia!
- Quem sabe... eu falei. Já não importava. Eu não era obrigada a nada. Eu tinha a eternidade.

A primeira parte estava encerrada. Eu venci. Eu me venci. Eu cresci. Eu me sustentei.

Júnior veio com a segunda rodada do chá. Eu não queria tomar mais. A boca do meu estômago ardia. Queimava. Eu ainda tinha medo de passar mal. A sua companheira a Mariana me recomendou.
- Só um golinho. Agora iremos trabalhar o emocional.
Todos os alertas me invadiram. Cortei a conexão. O medo se aproximou. E agora?

Minha amiga Priscila, percebendo meu pavor se aproximou e me abraçou:
- Toma Ely, fará muito bem a você. Não tenha medo. Confia em mim.
Eu confiei. Tomei um pouquinho que o Junior me ofereceu. Corri para o coqueiro novamente. Abracei-o com tanta força. Eu na verdade queria entrar nele.

Fui me acalmando. A ordem agora era trabalhar o emocional. Em que lugar nos pomos em relação ao afetivo. E deitasse quem assim o quisesse.

Continuei abraçada a árvore. Conversando com ela. Agora era eu e minha amiga árvore ou meu amigo o coqueiro.

Fui deitar. Meu corpo pedia isso. Acomodei-me no meu colchonete. Vesti minha meia. A noite já estava mais fria, embora tivéssemos o fogo a nos aquecer. Enrolei-me no cobertor. Deitada de lado, cabeça coberta, chamei pelo meu pajé.

- Quero me deitar em seu colo. Faça-me dormir!. Diga-me que está tudo bem...
Agora éramos eu, meu pajé e minha criança. Nós duas em cada lado do colo do pajé. Um profundo sentimento de paz me envolveu o ser.

Olhos fechados não havia mais nada na minha mente. Limpa, tranqüila, relaxei e deixei meu espírito trabalhar. Nada pensava. Só o som da mata ao fundo. Só o som do tambor. Só o som do choqualho.

Não sei o tempo que fiquei neste silêncio. Fui despertada pela Mariana que vinha avisar de uma nova rodada do chá e um novo trabalho.

Não questionei. Meu estômago ainda mantinha uma dor. Agora mais suportável. Eu tomaria a terceira dose. Agora já não tinha mais medo.

Com a terceira dose, o trabalho foi de jogar fora no fogo tudo aquilo que não queríamos mais. Isso foi muito legal. Nos seus lugares, mais perto do fogo, dançávamos ao som do tambor e dos pontos cantados pelo Xamã.

A dança foi me envolvendo até que comecei a trabalhar com o fogo. Absorver o que era bom. Eliminar o que não mais me servia. Corpo em movimento. Alegria no coração. Paz na mente. Conexão total com a energia daquele lugar.

Acabada essa etapa, pudemos deitar novamente. Deitei. Cabeça coberta. Posição fetal e lá fui eu novamente me entregar aos braços do meu pajé. Lá novamente fiquei tranqüila, leve, entregue a mata. Nada temia, nada esperava, nada questionava. Agora éramos eu e o “vazio”.

Fui desperta pelo meu “ex”, que dizia:
- Levanta, o Junior ta chamando. Ele dizia, mas eu o ouvia tão distante... Ele estava perto do que sua voz me fazia supor.
- Não quero! Me deixa ficar assim! Eu estava em total torpor. Leve. Eu não queria voltar para a Terra.

Mas voltei. Dei-me conta que o dia amanheceu. Eram 07:00 hs da manhã. Nossa! a noite passou em um misto de lentidão e pressa. O tempo parou para estarmos ali e de repente ele se impunha novamente.

Olhei em volta o cenário não tinha nada a ver com o que eu tinha visto durante o ritual. Pensei. Meu Deus isso é mágica! Isso é levantar o véu! E assim é um ritual xamã.

É sempre poder e conseguir; é ter sempre a possibilidade de levantar o “véu”.

Onde a matéria e o espiritual se fundem. Onde podemos vislumbrar a realidade em sua quase totalidade.

Obrigada Senhor! Eu sou um convosco!

Luz a todos
Ely da Costa Varella

Comments

Ely Prestige

1 year ago

Que bom que vcs gostaram..... foi uma experiência intensa....
e o curioso é que participei em 3 ocasiões e cada uma foi de um jeito.....mas todas deixaram um grande ensinamento.
e Lia, bota grandioso nisso....kkkk bjs

1 year ago

Ely. Muito lindo isso. Já vivi estas experîências e para mim , foram reveladoras e intensas . Obrigada por partilhar inclusive o medo . Eu tive também , mas depois se transformou em um extase e compreenção da grandiosidade de tudo isso. Abraço.

1 year ago

Como alguém que já esteve em contato com substâncias como essas, digo que essa experiência serve como um belo e vasto passo para grandes compreensões.

É maravilhoso poder ler isso, Ely.

1 year ago

Ely, grato por compartilhar sua linda experiência.