Encarei como uma oportunidade de ouro prá fazer um trabalho psico-arqueológico, na tentativa de tentar entender como me tornei o que sou. E estou tendo o privilégio de conviver com aquilo em que não quero me transformar. Já basta a semelhança física que existe entre nós. Quem me vê pela primeira vez costuma dizer, __"Nossa ele é a cara do pai!". Que a semelhança fique por aí, obrigado...
Explico. Não posso, de jeito nenhum, me permitir chegar ao ponto de, prá sobreviver, ter que tomar 10 tipos de remédios diferentes todos os dias, de tantas em tantas horas. Para mim isso não é vida! Quero chegar na reta final com um pouco mais de qualidade de vida. Quero ser dono de mim mesmo, e não confirmar a crença de que todo velho torna-se novamente uma criança.
Sinto que meu pai precisa de que alguém valide seus atos, tem medo de fazer errado, e minha mãe foi sempre aquela que lhe forneceu os parâmetros. Quando ela não está, o velho fica perdido, pois ele vive em função dos horários e decisões dela. E cá entre nós, ela é uma mulher decidida, nunca deixou muito espaço pro velho manobrar.
Meu pai está lúcido ainda. Conversa, mas fala devagar e com dificuldade, e suas referências são as de décadas atrás. Eu até que tento estabelecer um diálogo mais criativo, mas logo me impaciento. Ele já fez suas escolhas, não quer mudar, e fico até com um certo receio de dizer algumas verdades nessa altura da vida dele.
Resultado é que fico eu no computador, e ele na cadeira da sala, vendo as horas se escoarem até a próxima leva de medicamentos.
Meu pai foi militar um dia. Sua mente está programada para obedecer, e por isso mesmo não posso reclamar - ele não dá trabalho. E até me divirto com ele!
Hoje de manhã demos um passeio, andamos um pouco pelo bairro. Reparei que as pessoas nos sorriam mais do que de costume, algumas até dando risada mesmo, mas não pude atinar o por que. Cheguei a imaginar que era pelo inusitado de dois homens andarem de mãos dadas, mas que nada!
Ao chegarmos em casa, me dei conta do motivo. Eu mesmo não havia reparado, mas o velho estava de pijama, ( uma peça de cada cor ) óculos escuros, e como se não bastasse, a braguilha estava escancaradamente desabotoada! Não deu prá segurar o riso... nem eu, nem ele!