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Story

Não é sempre que se ganha um presente dessa natureza. Pois nesta semana, recebi de minha mãe o direito de cuidar de meu pai por alguns dias, enquanto ela está se purificando num retiro espiritual. Não pude recusar - afinal, são os últimos anos da vida de quem contribuiu com metade da cota para produzir essa carcaça que me carrega até hoje. 

Encarei como uma oportunidade de ouro prá fazer um trabalho psico-arqueológico, na tentativa de tentar entender como me tornei o que sou. E estou tendo o privilégio de conviver com aquilo em que não quero me transformar. Já basta a semelhança física que existe entre nós.  Quem me vê pela primeira vez costuma dizer, __"Nossa ele é a cara do pai!". Que a semelhança fique por aí, obrigado... 

Explico. Não posso, de jeito nenhum, me permitir chegar ao ponto de, prá sobreviver, ter que tomar 10 tipos de remédios diferentes todos os dias, de tantas em tantas horas. Para mim isso não é vida! Quero chegar na reta final com um pouco mais de qualidade de vida. Quero ser dono de mim mesmo, e não confirmar a crença de que todo velho torna-se novamente uma criança. 

Sinto que meu pai precisa de que alguém valide seus atos, tem medo de fazer errado, e minha mãe foi sempre aquela que lhe forneceu os parâmetros. Quando ela não está, o velho fica perdido, pois ele vive em função dos horários e decisões dela. E cá entre nós, ela é uma mulher decidida, nunca deixou muito espaço pro velho manobrar. 

Meu pai está lúcido ainda. Conversa, mas fala devagar e com dificuldade, e suas referências são as de décadas atrás. Eu até que tento estabelecer um diálogo mais criativo, mas logo me impaciento. Ele já fez suas escolhas, não quer mudar, e fico até com um certo receio de dizer algumas verdades nessa altura da vida dele. 

Resultado é que fico eu no computador, e ele na cadeira da sala, vendo as horas se escoarem até a próxima leva de medicamentos.

Meu pai foi militar um dia. Sua mente está programada para obedecer, e por isso mesmo não posso reclamar - ele não dá trabalho.  E até me divirto com ele!

Hoje de manhã demos um passeio, andamos um pouco pelo bairro. Reparei que as pessoas nos sorriam mais do que de costume, algumas até dando risada mesmo,  mas não pude atinar o por que. Cheguei a imaginar que era pelo inusitado de dois homens andarem de mãos dadas, mas que nada! 

Ao chegarmos em casa, me dei conta do motivo. Eu mesmo não havia reparado, mas o velho estava de pijama, ( uma peça de cada cor )  óculos escuros, e como se não bastasse, a braguilha estava escancaradamente desabotoada! Não deu prá segurar o riso... nem eu, nem ele!

Comments

1 year ago

"vou encontrar um meio termo entre minha impaciência e a rigidez dele. Valeu!"

rsrsrs que tal: "entre minha rigidez e a dele?" rsrsrsrs

1 year ago

É Laerte..já tentei não chorar mas não consegui me segurar em alguns momentos..

1 year ago

Por mais que o riso seja fundamental, tem uma hora que a coisa aperta tanto que fica difícil não chorar quando estamos diante de nossos pais em situação de risco. A gente faz de tudo pra manter a chama acesa, mas o vento da vida as vezes sopra tão forte que nos pega de surpresa e quando esse vento bate forte, percebemos que não estamos preparados para nos despedirmos daqueles que durante a vida toda chamamos de pai e mãe. Uau...é sufoco.....e temos que aceitar, pois contra o inevitável, nada podemos fazer.

1 year ago

fala sério né? rs

1 year ago

Que legal, Débora, foi a coisa mais interessante que eu ouvi nos últimos tempos! Dar risada é mágico, sabe que eu comecei a rir também aqui? rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs! É contagiante! rsrsrsrsrsrssrsr!