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Story

Você vai rir. Se já não riu. Só de ler o nome da crônica. Fala a verdade. Eu não vou ficar magoada nem nada. Todo mundo sempre ria do nosso 147. Do falecido. Agora respeita. Justamente porque é falecido. Quem não sabe do passamento, ainda pergunta, vez em quando: "E o Sansão? Firme e forte?"

Ah! Perdão. Esqueci de apresentar.

- Sansão, povo que me lê. Povo que me lê, Sansão. Nosso 147.

Bom, firme e forte tá difícil. Quando a gente comprou, já era avô. Mas aguentava. E como aguentava. O nome não foi acaso, não. Foi merecimento.

Um dia foi branquinho, branquinho. Nos seus últimos momentos nem definição a cor dele tinha mais, mas destacava-se o prata... da fita Silver Tape que a gente colocou pra fechar o porta-malas. Não protegia de nada. Nem de chuva, nem de barro, muito menos de assalto. Mas "causava". Não tinha esse nem essa que não comentasse.

Se vocês vissem pelo que o Sansão passou na vida... 'Pegava' amor. Jura que 'pegava'. 

Segundo o Tuim, meu marido, ele nunca deixou a gente na mão. Não é bem assim que eu me lembro, mas pra que ferir sentimentos, não é mesmo?

A gente batia altos papos, eu, o Tuim e ele. O Tuim, claro, era quem mais falava. Questão de sexo (acho). Eles se entendiam melhor. Mais coisas em comum...

Tinha gente que dizia, sem dó nem piedade: "Me admira, você, consultora internacional... Um 147? Tá. O 147 ainda vá lá, mas com Silver Tape???"

Alguém pode me responder uma perguntinha básica, por favor? Porque o mais caro tem necessariamente que ser o melhor? Por que as pessoas nos julgam pelo que vestimos, temos, ostentamos ou pelo que nos leva e trás? Sim, eu sei, foi mais de uma perguntinha. Mas responde, vá? Porque não entra na minha cabeça uma coisa dessas!

Eu não sou o meu carro. Ele é só o meu meio de transporte. E como diz a música do Ary Toledo "(...) tem as perna torta, mai de que me importa se elas vai e vem?" E ele cumpria as funções dele melhor que muito carrão que a gente teve depois. Ah! Se cumpria.

Preciso confessar uma coisa agora. O medo verdadeiro por trás de tanto discurso sobre o falecido. 

Já pensou? Se o povo me julga pelo que me transporta, o que uso pra esconder 'as vergonha', o que uso pra assinar, o que uso pra proteger meus olhos do Sol ou meus pés do chão quente, sujo ou cheio de pedras, talvez, apenas talvez, o povo faça isso comparativamente. Quero dizer, esse tem mais que aquele, logo, ele é melhor; logo, ele é mais inteligente; logo, ele é mais competente... 

Eu tenho medo. Acho que, de uma coisa pra outra - do que temos pro que somos - é só um pulinho. No juízo desse povo, claro. Porque na minha cabeça isso não entra mesmo!

Não sou Martin Luther King, mas tenho um sonho. E é bem parecido com o que ele contou pro mundo no seu mais brilhante discurso antes de falecer.

O meu sonho é ainda ver um mundo onde as pessoas tenham o direito de serem iguais sempre que as diferenças os inferiorizem e de serem diferentes sempre que a igualdade os descaracterize, conforme proposto pela Jornalista e filósofa Lia Diskin no Festival Mundial da Paz em Floripa (2006). 

Acho que é isso, então...

Nesse mesmo festival, Lia nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo então, propôs uma brincadeira pras crianças que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!" instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"

Ele ficou de cara. Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Você vê? Nossa essência, nossa felicidade, independe daquilo que temos e de quanto temos disso, seja lá o que for. Depende da qualidade das relações que estabelecemos. Até a ciência já provou isso!

Ubuntu significa: Sou quem sou, por quem somos todos nós.

Atente para o detalhe: por quem SOMOS, não pelo que temos...

Seja feliz esta semana porque, ubuntu, eu serei também!

De fato, como disse o poeta Alexandre Brito, seja tudo que deseja, até já não haver desejo que não seja tudo o que deseja... 

Inês Cozzo Olivares
25 de Outubro de 2010

Comments

1 year ago

Akza, o quê eu quis dizer afinal é que, embora o Fiat 147 funcione como veículo cumprindo sua função de levar e trazer, a troca por um mais novo não significa ostentação nem um luxo mas sim uma necessidade de uma maior segurança para o usuário e para os outros. Um carro de 30, 20 ou mesmo de 15 anos já não tem condições de obter uma manutenção apropriada, dificilmente encontram-se peças originais...Ou seja, pode dar uma pane em qualquer lugar e provocar um acidente.

1 year ago

Tive tb um 147, 1977, o Bonitinho! Grandes histórias e, este nuuunca me deixou na mão. UM1747 ainda me lembro da placa (eu acho.. hehehe).
Hoje tenho um fusca 69 que restaurei, estou restaurando um 68, e fazendo aquele que será o meu carro: um modelo hatch de 1982.
Tecnologias? todas serão colocadas no hatch.

Tenho carro com todas essas tecnologias aí...

Quando vc vestir alguma coisa, vista algo que te defina, mesmo um carro.
Por exemplo: Um Brava em excelente estado custa hoje menos de R$ 20.000,00 e é muuuuuuitíssimo melhor que os atuais de até R$ 30.000,00 além de ser muito mais estiloso.
:P

1 year ago

Mundo de iguais ia ser uma chatice, né não?
O que a filósofa disse é meio incoerente, não é?
Forma-se um looping se vc torna-se igual, naturalmente vc se descaracteriza, daí fica diferente então o outro que está diferente de vc mas tem que ser igual e quando torna-se igual, descaracteriza-se e então fica diferente, logo aquele primeiro ficou pra trás tem que ser igual, mas ao tornar-se igual descaracteriza-se daí....Viji..
Viji...
Nós, como seres únicos, somos isso, únicos, nunca iguais.
Direitos iguais, reais e acessíveis, talvez?

1 year ago

Não, o melhor não é necessariamente mais caro...
O Tony fala em tecnologias diferentes. Óbvio que neste caso, um New fusca é melhor - e mais caro - que um Fiat 147.. óbvio!
As SVU, por exemplo: As mais caras são as melhores? Seguem uma seqüência do tipo: a mais barata é a pior?
Não.
Comparar o 147 com os populares atuais é comparar laranjas com abóboras.
Comparemos os atuais!
Palio, Uno, Novo Uno, Fiesta, Novo Fiesta, Corsa, Ka.
Os mais caros são os melhores? Não, eles se equiparam em tecnologia, mas têm preços doferenciados.

Outro exemplo.
A Picanha de um lugar que comi lá no interior que custa R$ 60,00/kilo dá de 10000 a zero naquela merda que o Bassi me serviu da última vez que estive lá e me cobrou R$ 188,00 um pedacinho de nada! Mal feita, dura.
A feijoada da padoca aqui perto do meu escritório é tão saborosa qto a do Bolinha e custa R$ 20,00
A cerveja que tomo no morro do querosene por 3 pila, é muuuito melhor que a do sashinha, na vila, que custa 6!

1 year ago

Inês, tentarei responder suas pergutinhas, apesar de eu achar que foram retóricas apenas.
Porque o mais caro tem necessariamente que ser o melhor?

O que acontece é o contrário. O melhor geralmente é mais caro. No caso de automóveis, por exemplo, a tecnologia ultrapassada do Fiat 147 não conta com um recurso de proteção dos passageiros chamado efeito sanfona o qual consiste num sofisticado processo de engenharia que tanto o chassis como a lataria amortece o impacto de uma colisão diminuindo as chances de atingir diretamente os passageiros. Apenas este recurso mecânico é composto por materiais especiais e processos de fabricação e montagem que custaram muito dinheiro e tempo para serem desenvolvidos.

Um outro aperfeiçoamento foram os freios. Hoje grande parte dos carros já utilizam sistemas a disco refrigerado, a distância de frenagem reduziu consideravelmente. Aliado a tudo isto, novos sistemas de cinto de segurança, air bags entre outros itens eletrônicos. Tudo isto consumiu muito investimento e claro, alguém tem que pagar, o consumidor.

Porém, hoje não se compara a segurança que estes carros oferecem com a de um Fiat 147. Portanto, sentimentos a parte, se esforçar para ter um carro moderno não significa ostentação, mas sim, mais segurança para você para os seus e para os outros também. Acredito que isto é importante para qq um. Não é?

Por que as pessoas nos julgam pelo que vestimos, temos, ostentamos ou pelo que nos leva e trás?

Pelo que nos leva e trás está explicado acima e luxo muitas vezes está ligado a conforto. Muitos trabalham para obter isto também: "conforto". A indústria cria, oferece, convence e o povo compra. Nem todos podem viver da agricultura de subsistência. E é para este público que vc vende seus seminários e cursos.

E são estas indústrias que geram empregos, inclusive o seu. O julgamento que vc se refere está mais ligado ao ambiente em que você vive. Concordo que cada um tem que vestir o que mais condiz com sua personalidade, estado de espírito, humor, etc., mas uma vez que aceitamos viver em sociedade temos que respeitar certas convenções impostas a cada tipo de ambiente, situação e momentos. Faz parte. O resto é pura vaidade mesmo.
Ostentação eu acho bobagem... rsrsrsrs